Brasília — A decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL) de deixar o país após a derrota eleitoral e seguir para os Estados Unidos acelerou o movimento interno da direita para consolidar o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como principal referência nacional do campo. O episódio, ocorrido na terça-feira (27), e a carta divulgada por Flávio na quarta (28) reforçaram, segundo interlocutores do grupo, a percepção de um vácuo de liderança e aumentaram a pressão por nomes no Congresso capazes de articular a oposição no país.
Aliados bolsonaristas disseram, sob reserva, que houve compreensão sobre a saída do senador, vista por parte do grupo como reação a medidas do ministro Alexandre de Moraes, incluindo a apreensão de passaporte após a eleição. Ainda assim, a carta divulgada por Flávio — inicialmente autoproclamando-se “presidente do Brasil” e posteriormente mudando o termo para “líder do Brasil” — afastou parte de dirigentes e levou parlamentares a se distanciar publicamente do tom golpista, embora endossem o sentimento de injustiça do senador.
Em reunião na segunda-feira, do qual participaram Tarcísio, Rogério Marinho (PL-RN) e advogados, a cúpula da campanha e integrantes próximos tentaram convencer Flávio a moderar o discurso e a não insistir em contestações radicais do resultado. Segundo relatos, o grupo recomendou que o senador aceitasse a derrota nos termos das urnas e assumisse papel de articulação da oposição dentro do país — postura que, à tarde, Tarcísio já manifestara em vídeo, interpretado por políticos como tentativa de ocupar o espaço deixado por Flávio.
Tarcísio, em pronunciamento gravado, agradeceu aos eleitores e afirmou que “a eleição passou”, defendendo que a direita se una para exercer papel de fiscalização do governo e proposição de políticas econômicas e sociais. Em outra fala, o governador afirmou compreender o sentimento de indignação de Flávio, mas reforçou que o caminho é respeitar o resultado das urnas.
Dirigentes do PL reconhecem que, apesar da influência política que Flávio pode manter mesmo no exterior, a rotina de embates e a necessidade de liderança prática exigirão nomes presentes no Brasil, sobretudo no Congresso. Nesse contexto, são apontados senadores como Rogério Marinho (PL-RN), Michelle Bolsonaro (PL-DF) e Tereza Cristina (PP-MS) como possíveis articuladores da oposição no Senado — posto visto por aliados como estratégico para coordenar a agenda do campo e contrapor-se ao governo e ao Supremo Tribunal Federal.
Parlamentares e governadores bolsonaristas afirmam que eleger a presidência do Senado nas próximas composições será fundamental para organizar a oposição em Brasília e viabilizar uma frente capaz de fiscalizar o Executivo e responder a decisões do Judiciário. Integrantes da campanha e correligionários também avaliam que, mesmo que Tarcísio se consolide como principal nome para 2030, a Presidência do Senado é necessária para transformar esse projeto em poder de influência cotidiana.
Reações internas foram divergentes: alguns deputados do PL, como Gustavo Gayer (PL-GO), chegaram a compartilhar a carta de Flávio; outros demonstraram surpresa com a fuga. Rogério Marinho, que coordenou a campanha, afirmou que não foi informado sobre a saída, mas disse compreender a decisão e qualificou as medidas de Moraes como sinais de perseguição. Em outro momento, reafirmou que não há indícios de fraude nas eleições e classificou a carta como “desabafo”.
O senador e governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), disse considerar “compreensível” a saída de Flávio, questionando o contexto institucional em que um candidato da oposição com 59 milhões de votos teve o passaporte apreendido logo após a eleição: “O Brasil segue longe da normalidade institucional”, afirmou.
Aliados relataram desconforto nos bastidores com a mudança de postura de Flávio, que havia divulgado na segunda-feira um vídeo em tom mais moderado — reconhecendo tacitamente a derrota e dizendo que pretendia liderar a oposição internamente — e, em seguida, deixou o país. Após a divulgação da carta com tom golpista, a repercussão interna intensificou o debate sobre quem deve efetivamente comandar a oposição no cotidiano político do país.
Para correligionários, a saída de Flávio cristaliza um dilema: manter o senador como símbolo de resistência contra decisões do Judiciário e do governo, ou apostar em lideranças institucionais, presentes no Congresso e nos estados, capazes de coordenar uma estratégia de oposição mais pragmática. Nesse quadro, a ascensão de Tarcísio e a disputa pela Presidência do Senado passam a ser acompanhadas como capítulos decisivos para o futuro da direita brasileira.
Leia também: Ex‑presidentes do PT defendem que governo Lula 4 amplie diálogo com novas bases políticas










