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Plataformização do trabalho virou risco político que quase explodiu nas eleições de 2026

Plataformização do trabalho virou risco político que quase explodiu nas eleições de 2026

Por Rosana Pinheiro-Machado — 27.out.2026 às 16h00

As transformações sociais e laborais observadas nos últimos anos criaram um novo bloco de eleitores cuja insatisfação esteve à beira de alterar o resultado das eleições de 2026. Essa camada, formada por pessoas que ascenderam socialmente ou aspiram à ascensão por meio do empreendedorismo e do trabalho em plataformas digitais, carrega sentimentos contraditórios: gratidão por ganhos reais, mas também frustração diante da sensação de abandono estatal.

Minhas pesquisas com grupos que saíram da pobreza graças a políticas públicas mostram uma divisão clara. Uma parte reconhece o papel do Estado na mobilidade social e rejeita narrativas extremistas; em várias cidades, mobilizações recentes reuniram multidões em defesa da democracia e ampliaram a participação eleitoral de famílias inteiras.

Ao mesmo tempo, existe outra fração — informal, autônoma ou atraída pela retórica do empreendedorismo — que entende o Estado como ausente no seu projeto de vida. Essa parcela foi decisiva para candidaturas alinhadas ao discurso ultraindividualista e a forças políticas de direita, além de alimentar a abstenção entre os que não se sentiram mobilizados.

Um elemento que aprofundou essa fissura é o ecossistema digital: coaches e influenciadores oferecem, por pagamento, promessas de prosperidade e autonomia que misturam técnicas de marketing, coaching e narrativas políticas. Para muitos trabalhadores plataformizados, essas mensagens tiveram apelo maior do que propostas públicas pouco comunicadas.

Entregadores de aplicativos participam de motociata em apoio à candidatura de Lula, em São Paulo
Entregadores de aplicativos em motociata em apoio a Lula, São Paulo — Danilo Verpa, 21.out.2026

Além do fator cultural, há efeitos concretos da chamada “uberização” sobre condições de trabalho, renda e proteção social. A revogação da escala 6×1 foi celebrada como conquista significativa para milhões de trabalhadores formais, mas não resolve a vulnerabilidade dos informais, autônomos e microempreendedores que operam fora das relações tradicionais de emprego.

No desenlace eleitoral, algumas medidas recentes apontam caminhos: o perdão de dívidas para MEIs e propostas para ampliar a cobertura desses microempreendedores — incluindo propostas de tarifa zero via emendas parlamentares — são passos na direção certa, mas dependem de comunicação e implementação efetivas.

Para mitigar a tensão política e reduzir a atração por soluções autoritárias, é necessário buscar duas frentes com urgência:

  • Políticas públicas integradas: articular ministérios e programas para oferecer proteção e benefícios coordenados a trabalhadores formais, informais, autônomos e MEIs;
  • Capacitação e comunicação pública: oferecer formação empreendedora gratuita em plataformas governamentais, que combine habilidades técnicas com valores cívicos, contrapondo-se ao mercado pago de cursos que propagam narrativas individualistas e, em muitos casos, autoritárias.

A médio e longo prazo, a prioridade é gerar empregos bem remunerados e com sentido, mas também reconhecer que parte significativa da nova classe trabalhadora opta por permanecer autônoma. Políticas como ampliação da proteção social, programas de qualificação e medidas de inclusão fiscal direcionadas a MEIs podem reduzir a sensação de abandono e enfraquecer a atração por discursos radicais.

Nos próximos quatro anos, governos que queiram estabilizar o ambiente democrático deverão mostrar, de forma visível, que suas políticas alcançam essa nova matriz de trabalhadores. Demonstrar que o Estado protege e promove oportunidades coletivas é a forma mais eficaz de neutralizar a expansão de narrativas antidemocráticas entre setores que hoje se sentem à margem.

Em resumo: a plataformização do trabalho constitui hoje uma bomba-relógio política que, embora não tenha explodido nas urnas em 2026, ficou muito perto de fazê-lo. A resposta pública precisa ser rápida, articulada e orientada para incluir os informais, apoiar microempreendedores e reafirmar a proteção estatal como antídoto à ascensão de forças autoritárias.

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via Folha de São Paulo

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