São Paulo — Em “Sonhos da Pessoa Física”, lançado pela Todavia, o escritor Odorico Leal apresenta contos que discutem a condição econômica e profissional de criadores diante da tecnologia. No núcleo da coletânea está o conto “Luds”, em que um grupo de profissionais do livro — escritores, ilustradores, tradutores — passa a receber auxílio estatal após perder renda para uma inteligência artificial.
Leal, 43 anos, nascido em Picos (PI) e radicado na zona oeste de São Paulo, classifica a ficção de “Luds” como um exercício especulativo e irônico: a palavra referencia, em tom jocoso, os luditas, opositores históricos da tecnologia. Para o autor, porém, a precarização da classe artística não é novidade.
“A inteligência artificial vem como aquela última pá de terra, para desestabilizar de vez essas identidades”, diz Leal, acrescentando que a questão é anterior ao surgimento das ferramentas algorítmicas. Ele afirma também que as narrativas apocalípticas sobre a extinção humana em uma década — mencionadas por ex-pesquisadores de empresas do setor — são, em sua avaliação, “completamente absurdas”; ainda assim, alertou para os efeitos práticos da tecnologia sobre trabalhos cotidianos.
No livro, uma das histórias é narrada pela própria inteligência artificial que teria substituído os personagens (“A Forma Mais Humana”). Leal decidiu dar à ferramenta fictícia, chamada Vinci, traços de um deus grego caprichoso e arrogante, em vez do tom frio e mecânico sugerido por seu editor.
O autor evita, porém, minimizar o impacto real das IAs em serviços julgados “suficientemente bons” pelo público, como traduções comerciais. “O que é suficientemente bom é maravilhosamente conveniente”, observa, ressaltando que o problema atinge o trabalho cotidiano que paga as contas dos artistas, mais do que a grande arte.
Formado em literatura e doutor em literatura brasileira, Leal já traduziu ao português autores como Toni Morrison e Hisham Matar. Ele lembra que a trajetória de sua própria escrita exigiu ajustes: a versão inicial de seus primeiros contos foi apontada pela editora Maria Emília Bender como excessivamente gongórica — crítica que o levou a simplificar e incorporar humor e coloquialidade ao estilo.
Autor de estreia com a coletânea premiada “Nostalgias Canibais” (2024), publicada pela Âyiné, Leal afirma ter amadurecido seu projeto literário em “Sonhos da Pessoa Física”, que abre com contos que transitam entre o coloquial e o erudito e inclui episódios que brincam com identidade cultural e vaidade.
O livro traz ainda notas sobre o desafio de escolher o tom para uma voz narradora artificial e sobre o papel da crítica tecnológica no debate público. Leal mantém uma coluna de crônicas na revista Quatro Cinco Um.
- Livro: Sonhos da Pessoa Física
- Autor: Odorico Leal
- Editora: Todavia
- Páginas / Preço: 120 págs. — R$ 79,90 (impresso); R$ 54,90 (ebook)
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