São Paulo, 28.out.2026 — Três ex‑presidentes do PT afirmaram que o quarto governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa abrir canais de diálogo com os novos segmentos sociais que contribuíram para sua reeleição no segundo turno.
Tarso Genro, José Genoino e Olívio Dutra, dirigentes que comandaram o partido em momentos distintos e optaram por não disputar as eleições deste ano, disseram em entrevistas que a vitória de Lula foi superior ao alcance eleitoral do PT e contou com apoio de partidos como Rede, PSOL, PSB, PV e PDT, além de agrupamentos locais vinculados a legendas como PSD e MDB.
Segundo eles, parte desse eleitorado votou em Lula motivado pelo receio de uma aceleração da extrema direita, representada, na avaliação dos citados, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que obteve a maioria dos votos no primeiro turno. Por isso, defendem que o novo governo estabeleça uma interlocução direta com a sociedade.
Tarso Genro, de 79 anos, atribuiu a virada ao engajamento de grupos que estavam fora do debate público habitual — entre eles idosos e movimentos estudantis — e ressaltou que muitos desses participantes não se identificam necessariamente com a esquerda, mas se mobilizaram contra uma ameaça percebida ao regime democrático.
“É preciso repensar a comunicação: não dá mais para centralizar tudo nos canais oficiais do partido. A conversa tem de ser horizontal, com espaços onde as próprias redes e movimentos tenham autonomia”, afirmou Genro, citando o papel de lideranças independentes, como o deputado André Janones, na articulação de mobilizações.
Para José Genoino, deputado federal por sete mandatos e ex‑presidente do PT, a estratégia do governo deve combinar duas frentes: isolar a extrema direita no Congresso e manter contato permanente com a população. Ele sugeriu que o presidente viaje pelo país, participe de plenárias e conceda entrevistas para aprofundar esse diálogo — mencionando a presidente do México, Claudia Sheinbaum, como exemplo de interlocução ativa.
Genoino, hoje com 80 anos, disse também que o PT precisa se oxigenar internamente, abrindo espaço para nova militância e renovação de quadros. “Não adianta repetir congressos com os mesmos delegados; temos de dar lugar a movimentos mais jovens”, afirmou, acrescentando que continuará atuando como militante de base.
Olívio Dutra, ex‑governador do Rio Grande do Sul e 85 anos, destacou que a pluralidade de apoios a Lula fortalece a vida democrática e a convivência civil. “O resultado mostrou que a defesa da democracia e da soberania nacional mobilizou setores variados. A tarefa agora é consolidar esse leque de interlocução no campo democrático”, declarou.
Os três ex‑dirigentes concordaram que, no plano institucional, o governo terá o desafio de construir uma frente democrática capaz de dialogar com a direita moderada no Congresso Nacional, ao mesmo tempo em que neutralize iniciativas antidemocráticas da extrema direita em assembleias e governos estaduais.
A reportagem lembra que, além desses ex‑presidentes do PT, o senador gaúcho Paulo Paim, 76 anos, também optou por não concorrer nesta eleição e se aposentou após quatro décadas de atuação parlamentar. Paim disse que seguirá participando da militância na base do partido.
Os comentários dos dirigentes ocorrem após a reeleição de Lula, quando líderes e manifestações que construíram apoio nas ruas durante outubro assumiram papel de destaque no processo que levou à virada no segundo turno.
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