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Crítica: ‘100 Dias’ — filme de Carlos Saldanha reconstitui travessia de Amyr Klink, mas não explica seu fascínio

Crítica: '100 Dias' — filme de Carlos Saldanha reconstitui travessia de Amyr Klink, mas não explica seu fascínio

O longa 100 Dias, dirigido por Carlos Saldanha, reconstrói a célebre travessia de Amyr Klink pelo Atlântico — da Namíbia ao litoral da Bahia — realizada em um pequeno barco ao longo de cem dias. A obra estreia nos cinemas em 29 de outubro de 2026 e tem classificação indicativa de 12 anos. No elenco estão Filipe Bragança, Duda Mamberti e a francesa Philippine Leroy-Beaulieu.

Saldanha, conhecido sobretudo por seu trabalho no cinema de animação, entrega aqui um filme de tom contido que busca manter o interesse sem recorrer a repetições cansativas de planos idênticos do barco e do mar. A narrativa seleciona episódios da viagem para evitar a monotonia e as cenas que poderiam se tornar repetitivas aparecem com variação suficiente para sustentar o ritmo.

O roteiro destaca soluções práticas que permitiram a travessia: o uso de um lastro que estabilizava a embarcação — descrito como um mecanismo que fazia o barco retornar à posição quando tombava — e o desenvolvimento de alimentos desidratados dessalinizados, reidratáveis com água do mar. Essas inovações, essenciais para o feito, aparecem no filme como ferramentas de sobrevivência, ainda que não sejam apresentadas como avanços revolucionários na navegação.

Ao longo da jornada, o protagonista improvisa e toma providências práticas para se manter vivo no mar; em cena, resolve obstáculos com aplicação e engenho. No único momento em que a situação se torna realmente crítica — quando ele é arrastado por uma corrente equivocada — o desfecho vem com a intervenção de radioamadores, que o localizam e o salvam antes que a ameaça se agrave. O filme não deixa claro se essa sequência ocorreu exatamente assim na vida real ou se optou por uma versão mais otimista para a tela.

Além da dimensão técnica da expedição, 100 Dias trabalha uma motivação pessoal: a disputa entre Amyr e o pai, apresentado como a figura que jamais acreditou no filho. Essa animosidade é contraposta ao apoio da mãe e do irmão, que acompanham a iniciativa com interesse e carinho. A construção desse conflito familiar funciona como justificativa íntima para a decisão de partir em mar aberto, ainda que o passado da família — a origem estrangeira e a vida em uma praia isolada — fique em grande parte fora do foco.

No desempenho, Filipe Bragança carrega o peso de aparecer em praticamente todas as cenas e vai se firmando conforme a trama avança; Philippine Leroy-Beaulieu dá presença à mãe que equilibra o conflito familiar. A direção opta por um manejo emocional moderado: o filme evita excessos dramáticos e derramamentos sentimentais, resultando em um tom relativamente frio e contido.

O mérito da produção está em tornar verossímil e assistível uma história passada quase inteira em um único cenário — bote e mar — sem transformar a experiência em algo enfadonho. Ainda assim, a obra não consegue responder a uma questão central: por que a façanha de Amyr Klink despertou tanto interesse público e tornou-se símbolo de coragem ou obstinação? Essa lacuna pode ser uma limitação do filme ou uma dificuldade pessoal do espectador em enxergar a dimensão do feito.

No balanço, 100 Dias é um filme digno e bem composto que respeita a materialidade da travessia e evita histeria narrativa, mas deixa sem resposta o enigma do fascínio em torno da aventura que narra.

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via Folha de São Paulo

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