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Movimento de mulheres pressiona Lula por indicação da primeira ministra negra ao STF após a reeleição

Movimento de mulheres pressiona Lula por indicação da primeira ministra negra ao STF após a reeleição

São Paulo, 29.out.2026 — Depois dos discursos de agradecimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à base feminina de eleitores, movimentos de mulheres intensificaram a cobrança para que o próximo nome indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) seja de uma ministra negra — algo inédito na história da corte.

No primeiro post com grande alcance publicado na terça-feira (27), uma conta no Instagram reuniu mais de 12 mil curtidas ao afirmar: “A gente EXIGE uma ministra, de preferência negra, para o STF”. Nos comentários, integrantes de coletivos e eleitoras manifestaram preocupação com a dificuldade de um eventual processo de sabatina no Senado.

Analistas e ativistas lembram que, embora o presidente tenha prometido em seu discurso de vitória no domingo (25) que “as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras” e disse que se reunirá com mulheres, empresários e cientistas nos próximos dias, a composição do Congresso pode influenciar fortemente as nomeações. A partir de 2027, o Senado terá uma bancada majoritária de direita e o PL, partido ligado a Flávio Bolsonaro, será a maior bancada, com 28 cadeiras — circunstância apontada por grupos como fator que pode dificultar aprovações.

Contexto e histórico de representatividade

Em mais de um século de existência, o STF teve 172 ministros: apenas três mulheres — Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber — e três ministros negros, todos homens. Nenhuma mulher negra foi nomeada à corte.

O movimento por uma mulher negra no STF ganhou força em 2023, quando Ricardo Lewandowski deixou a corte. Na ocasião, coletivos como o Mulheres Negras Decidem passaram a reivindicar maior diversidade. O presidente, então, indicou Cristiano Zanin para a vaga.

Posteriormente, a aposentadoria de Rosa Weber abriu outra disputa pública; a vaga acabou sendo ocupada por Flávio Dino. Em 2025, a saída antecipada de Luís Roberto Barroso gerou nova oportunidade, e Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias — cuja nomeação foi rejeitada pelo Senado neste ano. Essa derrota trouxe novo fôlego às entidades que pressionam por uma ministra negra; o Educafro, por exemplo, entregou ao Planalto uma lista com 15 juristas negras consideradas aptas para a corte.

Opções, propostas e pesquisas

Entidades e coletivos vêm sugerindo nomes. O Instituto Juristas Negras apontou a promotora do Ministério Público da Bahia, Lívia Sant’Anna Vaz, como uma das opções citadas publicamente. Outro nome frequentemente mencionado pelas organizações é a juíza Karen Luise Vilanova Batista de Souza.

Dados de pesquisa divulgados em maio pelo Datafolha ajudam a explicar parte da mobilização: 51% dos entrevistados consideraram muito importante a escolha de uma mulher para o STF e 18% a consideraram um pouco importante; em relação à indicação de uma pessoa negra, 46% disseram que é muito importante e 16% que é um pouco importante.

Perfil: Karen Luise

Karen Luise Vilanova Batista de Souza (1970) — Um dos nomes que circulam em listas de apoio junto ao Planalto, Karen foi a primeira mulher negra a integrar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), quando o colegiado passou a contar com cinco mulheres pela primeira vez em duas décadas. Indicada pelo STF, teve seu nome aprovado pelo Senado em agosto de 2025 por 58 votos a 3.

Formada em direito pela PUC e com mestrado em direitos humanos, interculturalidade e desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha (Espanha), Karen é juíza da 3ª Vara do Júri de Porto Alegre. Entre 2022 e 2025, atuou como juíza auxiliar da Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), onde acompanhou o Programa de Equidade Racial.

Em novembro de 2025, no CNMP, Karen apresentou proposta para reservar 30% das vagas em concursos do Ministério Público, com distribuição prevista de 25% para negros, 3% para indígenas e 2% para quilombolas.

Próximas oportunidades

Além da vaga já aberta deixada por Barroso, o presidente terá ao menos mais três ocasiões formais para indicar nomes ao STF no próximo mandato: Luiz Fux atingirá a aposentadoria compulsória ao completar 75 anos em abril de 2028; Cármen Lúcia, em abril de 2029; e Gilmar Mendes, em dezembro de 2030. Para ativistas, essas quatro chances elevam a expectativa de que Lula possa, se quiser, promover maior representatividade no tribunal.

Apesar das dificuldades políticas evidenciadas por uma casa legislativa mais conservadora, o impulso de mobilização que emergiu no segundo turno das eleições tem sido citado por militantes como argumento para manter a pressão pública. Alguns grupos, inclusive, têm buscado apoio de parlamentares próximos à base do presidente, como o deputado André Janones (Rede-MG), identificado com a mobilização conhecida como “Exército de Lula”.

A discussão sobre a nomeação de uma mulher negra ao STF reúne disputa política, cálculos de governabilidade no Senado e demandas por representação que têm se intensificado nos últimos anos. A decisão final caberá ao presidente, mas sua efetividade dependerá da estratégia para articular a aprovação no Senado e do peso das pressões da sociedade civil.

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via Folha de São Paulo

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