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Brasil retoma normalidade pós-eleições de 2026, avalia Elio Gaspari

Brasil retoma normalidade pós-eleições de 2026, avalia Elio Gaspari

Para quem recorda o episódio de quatro anos atrás — com acampamentos junto a quartéis e pedidos de intervenção — a desistência de Flávio Bolsonaro em continuar a buscar a anulação do pleito traz alívio. A decisão indica que parte da direita, derrotada por uma diferença de cerca de 4 milhões de votos, recuou e optou por manter-se nos Estados Unidos.

Funcionária prepara urna eletrônica e sala de votação em Brasília
Funcionária prepara urna eletrônica e sala de votação em Brasília — Adriano Machado – 24.out.26/Reuters

Um dos principais resultados práticos deste ciclo político foi o afastamento mais claro dos militares da vida partidária — uma das grandes conquistas atribuídas ao terceiro governo de Lula. Ao contrário de gestões anteriores que exploraram a tensão como instrumento, este governo optou por reduzir a presença das Forças Armadas em disputas políticas.

Além disso, as penas aplicadas a envolvidos na trama golpista e nos atos de vandalismo do dia 8 de janeiro demonstraram caráter dissuasório. Essas sanções contribuíram para desestimular novas iniciativas antidemocráticas.

Na economia e na gestão, a expectativa é que o presidente adote uma agenda que misture medidas de lei e ordem com ajustes nas despesas públicas. Lula — que, segundo analistas, ampliou gastos para vencer a eleição e obteve sucesso eleitoral — tende a deixar a retórica de pré-campanha e retornar a um perfil mais conciliador e pragmático a partir de domingo.

Não se espera, contudo, um presidente que abrace narrativas simplistas sobre programas sociais. A experiência com a pobreza reforçou a compreensão governamental de que beneficiários do Bolsa Família querem trabalhar e muitas vezes empreender, desconstruindo estigmas de que tais políticas desestimulam o emprego.

Uma anedota contada pelo ex-presidente José Sarney ilustra a lógica da acomodação política: um deputado que votava contra o governo foi advertido sobre as consequências de manter essa postura — e acabou desistindo de resistir. Esse tipo de acomodação costuma reduzir rupturas graves no Congresso.

A oposição soma bancadas importantes tanto na Câmara quanto no Senado, representando setores conservadores como o agronegócio. No entanto, imaginar que esses parlamentares iriam a Brasília prontos para um conflito aberto é uma ilusão. O próprio Congresso, ao longo do mandato, tende a acomodar divergências sem grandes convulsões — com exceção da controvérsia em torno da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal, episódio que teve origem mais em descompasso do Planalto que em choque doutrinário.

Houve no passado, em 2002, temor de uma guinada radical após a eleição de Lula. A escolha de Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e a pacificação com o mercado financeiro mostraram que era possível aliar mudanças sociais à estabilidade macroeconômica. Fernando Henrique Cardoso chegou a afirmar à época que “Lula não é de esquerda”; em 2026, o próprio presidente afirmou a Kristalina Georgieva, diretora do FMI, que nunca foi um radical de esquerda.

A trégua concedida aos derrotados adia a avaliação do peso que os Bolsonaro ainda terão na oposição. Eles já perderam duas eleições presidenciais; na história recente, Lula havia sido derrotado três vezes (1989, 1994 e 1998) antes de alcançar a Presidência — modelos de liderança distintos, já que Lula não estabeleceu uma sucessão dinástica semelhante àquela que se discute hoje no PL.

O mapa da oposição para 2030 inclui potencialmente Tarcísio de Freitas, cuja trajetória reúne quatro anos como ministro da Infraestrutura e oito como governador de São Paulo, um currículo que o coloca como potencial candidato. O resultado do pleito recente pode libertá‑lo de eventuais freios impostos pelo Palácio e reabrir caminho para uma candidatura competitiva.

Em síntese, os sinais recentes — a desistência de contestação por parte de Flávio Bolsonaro, o distanciamento das Forças Armadas da política, a punição aos autores do 8 de janeiro e o retorno a práticas de governança pragmáticas — são interpretados como elementos que reconduzem o Brasil a um padrão de normalidade institucional.

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via Folha de São Paulo

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