Rio de Janeiro — Petistas e aliados do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) trabalham para transformar a retomada de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva no município do Rio em instrumento político nas disputas estaduais e municipais.
O avanço de Lula na capital — onde o presidente obteve 51,54% dos votos contra 48,46% de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno — virou argumento utilizado por correligionários de Paes para ampliar a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e cobrar a realização de um segundo turno para o governo do estado, tema de uma ação em tramitação no tribunal.
A estratégia inclui manter a mobilização que tomou as ruas do estado após o primeiro turno. Parlamentares do PT e do PSOL discutem formas de sustentar a participação de estudantes e demais manifestantes para fortalecer a presença das legendas de esquerda na aliança com o PSD, com vistas também à eleição municipal de 2028.
Aliados do ex-prefeito argumentam que, além de impulsionar a pauta do segundo turno, Paes tem peso político suficiente para negociar espaço no próximo governo federal. Quadros do PT-RJ, porém, relativizam essa possibilidade e dizem que a contribuição do ex-prefeito à virada não pode ser supervalorizada.
O deputado federal eleito Marcelo Freixo (PT) avaliou que Paes é um parceiro relevante, mas lembrou que o fator decisivo da virada foram as manifestações de rua e que esse movimento precisa ser preservado durante o novo governo.
O prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) afirmou que “a vitória não tem dono” e enfatizou o caráter da aliança entre PSD e PT no município. Já o deputado Renan Ferreirinha (PSD), ativo nas redes em defesa da realização de um segundo turno, disse que Paes não tratou de ocupar cargos no governo federal e tem concentrado esforços na disputa pelo governo do Rio.
Paes viajou de férias ao exterior no domingo (25), após votar pela manhã.
No plano institucional, a proposta de realização de um segundo turno estadual tramita em processo que tem como relator o ministro Cristiano Zanin no STF. A demanda foi apresentada pelo PSD e tem como base a controvérsia sobre a anulação posterior dos votos dados ao ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos).
Em março, no primeiro turno, Douglas Ruas (PL) obteve 49% dos votos nominais, percentual que subiu para 50,88% após a exclusão dos 274 mil votos destinados a Garotinho — decisão confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a partir de entendimento do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). A retirada das cédulas foi formalizada quatro dias depois da votação, e Paes sustenta que a anulação posterior é inconstitucional, porque considera que os eleitores deliberadamente escolheram o ex-governador.
Aliados de Paes lançaram nas redes um canal chamado “Exército do Dudu”, inspirado no movimento “Exército do Lula” coordenado pelo deputado André Janones (Rede‑MG). A página reunia, até terça-feira (27), mais de 190 mil apoiadores.
Os números das votações mostram variações relevantes entre primeiro e segundo turnos. Na cidade do Rio, Lula passou de 43,91% no primeiro turno para 51,54% no segundo, enquanto Flávio Bolsonaro caiu de 47,88% para 48,46%. No estado do Rio, a diferença entre os candidatos também diminuiu: no primeiro turno Flávio teve 53,01% contra 39,41% de Lula (diferença de 13,6 pontos); no segundo turno a distância caiu para 6,2 pontos, com 53,1% para Flávio e 46,9% para Lula.
O movimento que cresceu em cidades como Niterói e no centro do Rio espalhou atos diários por diferentes pontos do estado e culminou com um ato em Copacabana que contou com a presença de Lula.
No PT-RJ, a discussão agora é como transformar o capital político gerado pelas ruas em força organizativa para as próximas disputas municipais. Entre as metas de longo prazo está a possibilidade de lançar candidatura própria à Prefeitura do Rio em 2028, seja em aliança com o PSD, seja de forma independente. O partido ressalta que, na atual costura, abriu mão da vaga de vice na chapa de Paes para garantir o apoio do ex-prefeito a Lula.
As próximas movimentações dependerão, em grande medida, do desfecho do processo no STF e da capacidade das lideranças locais de manterem a mobilização popular sem dispersar o eleitorado conquistado na virada.
Publicado em 28.out.2026. Atualizado em 28.out.2026 às 14h36.
Leia também: Em 42 horas: a cronologia da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e a chegada a Miami (28.out.2026)










