Solange Srour
Diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management
Com as eleições encerradas, a prioridade será saber se o próximo presidente terá disposição política e coragem para tomar medidas que recoloquem os fundamentos da economia em ordem. Manter a estabilidade exige restauração do tripé macroeconômico: responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante — cujo componente mais frágil hoje é o fiscal.
O desequilíbrio nas contas públicas tornou-se mais agudo nos últimos anos. O gasto primário federal saltou de 17,8% do PIB em 2021-22 para 19,6% em 2023 e se manteve elevado. A dívida bruta cresceu de 72% do PIB no fim de 2022 para quase 83% em 2026. Com o crescimento limitado e o patamar atual de juros, estabilizar essa trajetória exigiria um esforço fiscal da ordem de 4 pontos percentuais do PIB — algo pouco factível no curto prazo sem reformas estruturais.
Mesmo contando com um ministro da Fazenda comprometido com ajuste e um Banco Central independente, essas condições não bastam se o presidente não der sustentação política às medidas. A credibilidade de equipes econômicas desaparece rapidamente quando o chefe do Executivo não arbitra conflitos, não assume a autoria das decisões e não suporta o custo político necessário para aprová-las.
É equivocado transferir ao Banco Central o papel de “adulto” na economia. A independência da autoridade monetária protege a condução da política monetária, mas não cria espaço fiscal. Juros globais mais elevados encarecem o financiamento externo e doméstico e reduzem margem de manobra: a política monetária responsável não substitui a necessidade de correções fiscais.
Um ajuste crível precisa reduzir permanentemente o ritmo de crescimento da despesa pública, não se resumir a contingenciamentos temporários nem depender apenas de elevação de receitas. Isso implica revisar indexações e vinculações orçamentárias, recalibrar benefícios sociais, reavaliar subsídios e benefícios tributários e avançar em nova reforma da Previdência. Entre os pontos a considerar está a revisão de subsídios ligados ao regime do Microempreendedor Individual (MEI), cuja expansão sem ajuste entre contribuições e benefícios amplifica a pressão sobre o sistema previdenciário, agravada pela regra de reajuste do salário mínimo e pela baixa idade mínima de aposentadoria.
Há ainda um problema correlato: a perda de confiança nas instituições. A insegurança jurídica desestimula investimentos, eleva custos e reduz previsibilidade. Reformas no Judiciário que elevem transparência, eficiência e segurança jurídica, sem invadir a separação dos Poderes, são tão importantes quanto as correções fiscais para restaurar um ambiente favorável ao crescimento.
Em resumo, bons nomes e discursos de responsabilidade econômica não bastam. O próximo presidente terá de empregar seu capital político para aprovar reformas que gerem economias permanentes e arcar com os custos eleitorais dessas escolhas. Se prevalecer a inércia ou mais do mesmo, a economia caminhará para uma crise que imporá um ajuste mais doloroso e desordenado. Liderança não se delega: o “adulto na sala” precisa ser o presidente.
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