Júlia Galvão — São Paulo, 29.out.2026
Um levantamento da Fin (Confederação Nacional das Instituições Financeiras) indica que o acesso a serviços financeiros no Brasil tornou-se menos desigual entre as regiões, impulsionado por fatores como a maior bancarização, o uso crescente do Pix e a expansão do mercado de capitais.
O estudo destaca que o Pix — que movimentou R$ 3,8 trilhões em setembro — cresceu com mais intensidade, entre 2020 e 2025, nos estados onde o crédito tinha menor participação na economia no início do período. Para Vinícius Botelho, autor do trabalho e gerente de assuntos econômicos da Fin, a ferramenta de pagamentos instantâneos pode ter estimulado a entrada de pessoas no sistema financeiro ao tornar transferências e pagamentos mais simples e ao gerar um efeito de rede: quanto mais usuários, maior o incentivo para novos entrantes.
Avanço da bancarização
Segundo o relatório, até 2024 pelo menos 94% da população adulta já mantinha relacionamento ativo com alguma instituição financeira. O Norte registrou o maior aumento no número de pessoas bancarizadas entre 2020 e 2024, com alta de 20,8%, seguido pelo Nordeste, com avanço de 13,3%.
O estudo lembra que a pandemia foi um ponto de inflexão: medidas de distanciamento e o pagamento do auxílio emergencial por meio de contas digitais contribuíram, até outubro de 2020, para que 9,8 milhões de novos usuários passassem a ter vínculo com o sistema financeiro. O Pix entrou em operação em novembro de 2020.
Crédito e atividade financeira
O relatório aponta que o crédito por habitante cresceu mais nos estados onde, em 2024, o saldo de empréstimos e financiamentos por pessoa era menor. Entre 2024 e 2025, o volume real de crédito avançou, em média, 7% nas unidades federativas com menos de R$ 20 mil por pessoa nessa modalidade; nos demais estados a alta média foi de 4%.
Na média das 27 unidades da federação, o crédito real por habitante cresceu 5,6% no período. Cerca de três quartos desse aumento vieram de operações com pessoas físicas (contribuição de 4,3 pontos percentuais), enquanto o crédito para empresas acrescentou 1,3 ponto percentual.
Financiamentos foram o principal motor da expansão do crédito a pessoas físicas em 21 estados; dentro dessa categoria, os financiamentos imobiliários impulsionaram o crescimento em 18 unidades federativas. O crédito às pessoas físicas cresceu em todos os estados entre 2024 e 2025, ao passo que o crédito às empresas apresentou variação mais heterogênea — com quedas de até 8% e altas de até 19%.
Mercado de capitais
O estudo também registra avanço nas emissões de debêntures e de notas comerciais entre 2023 e 2025 em todas as macrorregiões do país. No Norte e no Sul, o aumento anualizado real das emissões foi de pelo menos 50%. Para alocar as emissões regionalmente, a análise considerou o estado onde está registrada a sede da empresa emissora.
Impactos socioeconômicos
Botelho ressalta que a maior inclusão financeira tende a facilitar o acesso ao crédito e está associada, segundo trabalhos acadêmicos citados no estudo, a efeitos positivos sobre empreendedorismo, mercado de trabalho e até indicadores de saúde. Ainda assim, o relatório enfatiza que as razões completas por trás da redução das desigualdades regionais no acesso financeiro não estão totalmente esclarecidas e podem envolver múltiplos fatores, como mudanças tecnológicas, políticas públicas e comportamento dos agentes econômicos.
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