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Mulheres pressionam Lula para indicar primeira ministra negra ao STF após reeleição

Mulheres pressionam Lula para indicar primeira ministra negra ao STF após reeleição

Por Geovana Oliveira

São Paulo — 29.out.2026

Grupos de mulheres e coletivos antirracismo intensificaram nas redes sociais e em mobilizações públicas a cobrança para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indique a primeira mulher negra para o Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido ganhou força após os discursos de agradecimento de Lula pela vitória nas eleições, em 25 de outubro, quando ele afirmou que as mulheres terão maior atenção nas políticas públicas e anunciou encontros com representantes de diferentes setores.

Publicações que pedem uma nomeação feminina e negra ao STF têm repercutido amplamente — uma delas, publicada em 27 de outubro, soma mais de 12 mil curtidas e incluiu o apelo: “A gente EXIGE uma ministra, de preferência negra, para o STF”. Entre as preocupações apontadas nas mensagens está a dificuldade de aprovação de indicações no Senado, que terá, a partir de 2027, uma bancada majoritária de direita. O PL será o partido com o maior número de cadeiras no Senado (28 senadores), o que poderá influenciar a tramitação de sabatinas e nomeações.

O movimento Mulher Negra no STF, que ganhou visibilidade em 2023 com a saída de Ricardo Lewandowski, voltou a se organizar depois de aposentadorias recentes e derrotas de indicações do governo. Em 2025, por exemplo, o governo nomeou o advogado-geral da União Jorge Messias, que acabou rejeitado pelo Senado; na mesma etapa, entidades civis retomaram a lista de juristas negras, e organizações como o Educafro enviaram ao Planalto uma lista com 15 nomes.

Organizações e ativistas apontaram nomes que já têm circulação pública como sugestões para a vaga. Entre elas está a promotora do Ministério Público da Bahia Lívia Sant’Anna Vaz. Outra figura citada por entidades é a juíza Karen Luise Vilanova Batista de Souza, nascida em 1970, cujo perfil tem sido apresentado como exemplo de trajetória compatível com a Corte.

Quem é Karen Luise

  • Formação: graduação em Direito pela PUC e mestrado em direitos humanos, interculturalidade e desenvolvimento pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilha (Espanha).
  • Cargo: juíza da 3ª Vara do Júri de Porto Alegre.
  • Experiência institucional: foi a primeira mulher negra a integrar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e, entre 2022 e 2025, atuou como juíza auxiliar da Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), onde supervisionou o Programa de Equidade Racial.
  • Aprovação no Senado: teve nome aprovado para o CNMP em agosto de 2025 por 58 votos a 3.
  • Proposta em políticas públicas: em novembro de 2025, apresentou no CNMP proposta que estabelece reserva de 30% das vagas em concursos do Ministério Público (25% para negros, 3% para indígenas e 2% para quilombolas).

Dados de opinião pública também alimentam a demanda: pesquisa do Datafolha, de maio, mostrou que 51% dos entrevistados consideram muito importante a indicação de uma mulher para o STF, e 46% apontam ser muito importante a nomeação de uma pessoa negra.

O histórico do Supremo evidencia a lacuna de representatividade: em 135 anos de existência, o STF contabiliza 172 ministros. Apenas três foram mulheres (Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber) e três foram ministros negros — todos homens. Nenhuma mulher negra chegou a ocupar uma cadeira na Corte.

O calendário de substituições dá a Lula, no novo mandato, até quatro oportunidades formais para alterar a composição do tribunal: preencher a vaga deixada por Luís Roberto Barroso (cuja saída antecipada abriu espaço para a indicação que sofreu derrota no Senado), e futuras vacâncias por aposentadoria compulsória — Luiz Fux (abril de 2028), Cármen Lúcia (abril de 2029) e Gilmar Mendes (dezembro de 2030).

Ativistas e parlamentares que apoiaram Lula na campanha anunciam que usarão a capital político conquistada no segundo turno para cobrar ações concretas. Deputadas e organizações seguem reunindo listas de nomes e dialogando com interlocutores no Planalto para reforçar a demanda por diversidade no Supremo, em especial a presença de uma mulher negra.

Do lado político-institucional, analistas apontam que a possibilidade de aprovação de uma indicação dependerá não só da escolha do nome, mas também de negociações com a base no Senado, onde a composição partidária e a pauta de costumes poderão pesar nas sabatinas.


Contexto

Desde 2023 movimentos e coletivos vêm reclamando que o Supremo reflita a diversidade demográfica do país; a disputa por vagas no tribunal tem se tornado também campo de disputa política e simbólica, que envolve a atuação de entidades da sociedade civil, partidos e a leitura do eleitorado sobre representatividade.

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via Folha de São Paulo

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