Home / Política / Auxílio do governo Milei à saída de Flávio Bolsonaro agrava crise nas relações Brasil–Argentina

Auxílio do governo Milei à saída de Flávio Bolsonaro agrava crise nas relações Brasil–Argentina

Auxílio do governo Milei à saída de Flávio Bolsonaro agrava crise nas relações Brasil–Argentina

Relatos da imprensa argentina de que membros do governo de Javier Milei teriam facilitado a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil aprofundaram a deterioração já existente nas relações bilaterais.

De acordo com reportagens, autoridades da Casa Rosada teriam ajudado na operação que permitiu o embarque de Flávio e de familiares em Porto Iguaçu com destino, segundo aqueles veículos, a Miami. Em comunicado divulgado nas redes sociais, a Direção Nacional de Migrações da Argentina informou, no entanto, que o grupo cruzou a fronteira pela Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50 de terça-feira (27) e, às 23h30, embarcou em um voo privado operado pela companhia Baires Fly S.A. com escala para Guayaquil, no Equador, conforme o plano de voo.

Fontes da imprensa argentina também apontaram que Santiago Caputo, assessor especial de Milei, estava em Iguaçu no momento da decolagem e que um veículo foi disponibilizado para levar o senador até a aeronave.

O senador, que deixou o país após ter sido alvo de ordem judicial para a entrega de seus passaportes e depois de perder a eleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), publicou um discurso nesta quarta-feira (28) no qual agradeceu a Milei “pela coragem, senso de justiça e legalidade”.

Integrantes do governo do presidente Lula relatam que o episódio aprofundou a falta de confiança entre as autoridades dos dois países. Havia expectativa de que a eleição brasileira abrisse espaço para algum restabelecimento do diálogo político, mas auxiliares do presidente consideram que as recentes ações do Executivo argentino congelam o status quo e devem manter a tensão até, pelo menos, a eleição argentina prevista para outubro de 2027.

Em agosto, o governo brasileiro orientou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, a retornar a Buenos Aires, enquanto o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, permaneceu no Brasil. Segundo auxiliares do Palácio do Planalto, a volta dos embaixadores às respectivas capitais é hoje hipótese remota.

O caso se soma a uma série de episódios recentes que já vinham azedando a relação: Milei fez ataques diretos ao presidente Lula — chamando-o de “ladrão” e “presidiário” — e insultou o ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca”. Do lado brasileiro, o ministro da Fazenda Dario Durigan qualificou Milei de “palhaço” e o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), o definiu como “caricatura patética” e aliado de Donald Trump.

Durante a terça-feira, autoridades brasileiras mantiveram contato intenso com interlocutores argentinos, que inicialmente afirmaram não ter registro da entrada de Flávio no país. Para Brasília, a dificuldade de comunicação é mais um sinal do mau momento nas relações bilaterais.

Também em 27 de outubro, o porta-voz do governo argentino, Adrian Ravier, declarou que não haveria posicionamento oficial sobre a vitória de Lula no pleito brasileiro, alegando que, em 2023, Lula teria ignorado a eleição de Milei — afirmação que, segundo registros oficiais, não corresponde ao que foi dito pelo presidente brasileiro na ocasião, quando ele saudou instituições e o povo argentino pela condução do processo eleitoral.

O episódio envolvendo o embarque de Flávio Bolsonaro e a participação de assessores do presidente argentino representam um novo capítulo de tensão diplomática entre Brasil e Argentina e elevam a probabilidade de mais desentendimentos públicos e de dificuldades para retomar canais formais de diálogo no curto prazo.

Leia também: Avião ligado a Flávio Bolsonaro sai do Equador e segue para Miami após entrada na Argentina

via Folha de São Paulo

Marcado: