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Jabuti 2026: Eliana Alves Cruz faz história e Ruy Castro conquista ‘Livro do Ano’ pela 2ª vez seguida em cerimônia marcada por surpresas

Jabuti 2026: Eliana Alves Cruz faz história e Ruy Castro conquista 'Livro do Ano' pela 2ª vez seguida em cerimônia marcada por surpresas

São Paulo, 28.out.2026 — Na cerimônia do Prêmio Jabuti realizada na terça‑feira, 27 de outubro de 2026, a escritora carioca Eliana Alves Cruz tornou‑se a primeira mulher negra a receber o prêmio de melhor romance literário, por Meridiana, marco reconhecido por editores e agentes culturais como um avanço simbólico para a representatividade no prêmio.

Outra conquista histórica da noite foi a escolha de Ruy Castro como “Livro do Ano” com Trincheira Tropical. É a segunda vez consecutiva que o autor leva a estatueta máxima: no ano anterior havia sido premiado por O Ouvidor do Brasil. Especialista em biografias, Castro já havia sido reconhecido por trabalhos sobre Garrincha e Carmen Miranda e pelo romance histórico Os Perigos do Imperador.

Os títulos citados foram editados pela Companhia das Letras; segundo os organizadores, a última vez que o “livro do ano” não saiu de uma editora desse grupo foi em 2022.

A cerimônia também trouxe surpresas que suscitavam comentários entre convidados e profissionais do setor. Na categoria de incentivo à leitura, houve uma exceção no processo: a decisão foi tomada por enquete popular, e o influenciador Pedro Pacífico, conhecido como Bookster, recebeu o prêmio entregue pelo jogador Gustavo Scarpa.

O formato de eleição do Jabuti explicita parte das razões para os resultados heterogêneos. Cada uma das 23 categorias é avaliada por um trio de jurados escolhido pela curadoria do prêmio, chefiada por Hubert Alquéres nas últimas quatro edições. Os jurados atribuem notas individuais —sem conhecer a identidade uns dos outros— e o vencedor é o livro com a maior média. A organização do prêmio afirma não revisar as escolhas e garante autonomia ao júri.

Esse método amplia a variabilidade dos resultados: categorias com muitos inscritos tendem a dispersar notas, e decisões muito distintas entre painéis distintos geram críticas sobre a ausência de uma etapa deliberativa coletiva ou de critérios mais rígidos. Nos bastidores, editores chegaram a reclamar da sensação de arbitrariedade que às vezes emerge das escolhas.

Um dos episódios que provocou estranhamento público foi a indicação do sociólogo Jessé Souza, com Por que a Esquerda Morreu?, na categoria de saúde e bem‑estar —escolha que surpreendeu parte do público e da plateia. A vencedora nesse campo foi A Paixão pela Mentira, do psicanalista Paulo Schiller, outro ensaio que aborda temas políticos.

Ao mesmo tempo, júris em outras categorias privilegiaram vozes fora do circuito editorial dominante: o potiguar Luckas Iohanathan voltou a ser premiado em quadrinhos pela editora Comix Zone; o contista baiano Abáz, com Massaranduba (Senac Rio), avançou sobre concorrentes de grandes editoras; e a poeta Juliana Cajives recebeu o prêmio na categoria de estreantes, editada pela independente Mormaço Editorial. Ian Fraser foi reconhecido como melhor romancista de entretenimento pela Intrínseca.

Veteranos também foram celebrados: o editor e poeta Alberto Martins, de 68 anos, venceu com Boris e Marina (Companhia das Letras), e o jornalista mineiro Humberto Werneck, de 81 anos, faturou o Jabuti de melhor crônica por Viagem ao País da Crônica (Tinta‑da‑China Brasil).

O balanço da noite mostra um prêmio que, simultaneamente, consolida nomes consagrados e amplia a visibilidade de autores e selos independentes. Para parte do mercado editorial, essa pluralidade é sinal de democratização; para outros, expõe fragilidades do sistema de seleção e deixa margem para resultados incoerentes entre categorias.

Conhecendo a forma como os jurados são escalados e como as notas são computadas, cabe ao público e aos profissionais avaliar se o Jabuti de 2026 reflete um processo democrático de escolhas literárias ou uma ordem benevolente que, em alguns momentos, se aproxima da anarquia.

Reportagem de Walter Porto. Atualizado em 28.out.2026 às 18h53.

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via Folha de São Paulo

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