Por Inácio Araujo
- Quando: Qui. (29), às 19h, no CCSP
- Classificação: 16 anos
- Elenco: Stanislas Merhar, Sylvie Testud, Olivia Bonamy
- Direção: Chantal Akerman
Chantal Akerman assina uma adaptação cinematográfica de “A Prisioneira” que respira Marcel Proust, não por reproduzir datamentos ou pormenores do período, mas por capturar a lógica íntima da escrita proustiana: a insistência em reviver, dissecar e querer possuir o passado e o objeto de desejo.
No centro da narrativa está Simon, um homem contemporâneo e, ao mesmo tempo, claramente proustiano: escritor, pertencente a um meio de privilégios, cuja vida é consumida pela necessidade de controlar Aryane. A ação se desenrola entre perseguições e esperas — siga-a nas ruas, nos hotéis, nos teatros —, mas o verdadeiro campo de batalha é a tentativa de conhecer integralmente a mulher que ama. Esse saber totaliza-se, na prática, numa forma de dominação sufocante.
A atuação de Sylvie Testud, ao lado de Stanislas Merhar e Olivia Bonamy, confere à história uma ambiguidade essencial: Aryane permanece um enigma que resiste a qualquer transluminação completa, enquanto Simon se entrega cada vez mais ao próprio desejo de aprisionamento. Akerman filma essa escalada com paciência e rigor, transformando pequenos gestos e silêncios em evidências da paixão que vira cárcere.
Formalmente, o filme dialoga com outras tradições do cinema. Há, em sua construção, ecos hitchcockianos — a obsessão como motor dramático, o olhar que vigia — e, por vezes, lembranças do cinema de Alain Resnais, na maneira como tempo e memória se sobrepõem. Esses parentescos não descaracterizam a autora; ao contrário, ajudam a situar sua leitura proustiana num idioma cinematográfico muito próprio.
O resultado é paradoxal: “A Prisioneira” aparece como excessiva e, simultaneamente, maravilhosa. Em determinados momentos irrita pela insistência, em outros encanta pela precisão com que descreve a lâmina afiada do ciúme. Para quem não é proustiano, a obra pode parecer prolixa; ainda assim, não deixa de ser um trabalho de grande cineasta.
O filme também se mostra didático quanto às consequências da tentativa de submeter o outro. À medida que a trama avança, a sensação de que aquele caminho só pode desembocar em desgraça se intensifica — não apenas como figura trágica, mas como alerta social: o desejo de possuir pode derivar em violência real e irreversível.
Em termos de recepção, a obra reacende debates recentes sobre hierarquias no cânone cinematográfico — por exemplo, a polêmica envolvendo a posição de “Jeanne Dielmann” em votações da revista Sight and Sound — ao lembrar que escolhas estéticas e críticas continuam sujeitas a controvérsias. Ainda assim, Akerman oferece aqui um filme que se impõe por sua força e por colocar em cena a complexidade da alma humana, inclusive seus impulsos mais destrutivos.
“A Prisioneira” vale ser vista tanto pela coragem de adaptar um texto proustiano ao cinema quanto pela lucidez com que mostra como o amor, transformado em controle, aprisiona e mata.
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