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Fuga de Flávio Bolsonaro a Miami e carta autoproclamatória expõem apoiadores e mercado

Fuga de Flávio Bolsonaro a Miami e carta autoproclamatória expõem apoiadores e mercado

Publicada em 28.out.2026 às 18h52 — A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil rumo a Miami ganhou contornos políticos e simbólicos que ampliaram o constrangimento entre seus apoiadores. Em poucas horas, o candidato derrotado passou de negar qualquer intenção de deixar o país a desembarcar nos Estados Unidos e divulgar uma carta em que se autodeclara “presidente eleito” do Brasil.

O documento, divulgado por aliados e inicialmente acompanhado de um brasão antigo — o mesmo usado entre 1889 e 1968 —, comparou o autor a Rui Barbosa e foi recebido por adversários e analistas como uma peça de caráter golpista e fora da realidade institucional.

Além do simbolismo, a carta traz agradecimentos a Javier Milei e Donald Trump, gesto que, somado à partida do país, aprofundou a sensação de abandono entre quase 60 milhões de brasileiros que o elegeram nas urnas. Para setores da Faria Lima e para o chamado campo da direita democrática, a deserção do candidato, que enfrenta acusações e está envolvido em dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal por corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro, tornou insustentável a defesa que lhe vinha sendo oferecida.

O episódio expõe uma contradição repetida: parcelas da elite econômica e do liberalismo político, incapazes de construir candidaturas competitivas com apelo popular, acabam por associar-se a figuras populistas ou autoritárias. Esse alinhamento, sustentado pela expectativa de políticas econômicas favoráveis, ignorou antecedentes e riscos já conhecidos do grupo político representado pelo candidato.

Há razões legítimas para críticas à expansão de gastos públicos, a intervenções estatais mal planejadas ou a desequilíbrios fiscais. Mas, conforme observam analistas políticos e econômicos, a defesa abstrata da “responsabilidade fiscal” não tem força eleitoral suficiente para mobilizar eleitores que enfrentam dificuldades cotidianas — e, quando falta construção política e narrativa convincente, buscam-se atalhos com lideranças que canalizam ressentimentos e antagonismos.

O padrão não é novo: episódios históricos, como a convivência entre liberalização econômica e repressão em regimes autoritários, e a recente aliança entre setores empresariais e Jair Bolsonaro evidenciam riscos dessa estratégia. No caso atual, a combinação entre fuga, retórica de confronto e ligações públicas a líderes externos obriga a uma reflexão séria por parte de agentes do mercado e dos círculos conservadores que apostaram na candidatura.

Ao final, a movimentação de Flávio Bolsonaro deixou uma pergunta central: até que ponto conveniência política e interesses econômicos justificam a terceirização da representação democrática a atores cuja trajetória e ações colocam em risco instituições e a própria governabilidade?

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via Folha de São Paulo

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