São Paulo, 28.out.2026 — O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se autoproclamou o “verdadeiro presidente eleito”, linguagem que posteriormente foi suavizada em nova versão do texto — em que ele passou a se apresentar como “o líder do Brasil”. A peça, difundida por apoiadores, citou episódios de autoproclamação política na Venezuela, como os atos de Juan Guaidó em 2019.
No documento, Flávio afirmou haver uma “impossibilidade matemática” no resultado que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O senador é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por participação na tentativa de impedir a posse do presidente em 2022.
Após desembarcar nos Estados Unidos — em imagem registrada por Ricardo Arduengo/AFP em 28.out.2026 — Flávio reafirmou críticas ao pleito e ao arcabouço institucional do país.
A comparação com a Venezuela lembra o episódio de 2019, quando Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino e chegou a ser reconhecido por cerca de 60 países. Naquele ano, a reeleição de Nicolás Maduro em 2018 foi amplamente contestada internacionalmente: União Europeia e países como Brasil, Canadá, Japão, Reino Unido e Estados Unidos rejeitaram o resultado.
O então secretário-geral da OEA, Luis Almagro, afirmou na ocasião que a eleição venezuelana ocorreu “sob uma falta generalizada de liberdades públicas, com candidatos e partidos banidos e com autoridades eleitorais sem qualquer credibilidade” e destacou que o pleito se deu com “mais de 300 presos políticos”.
Relatórios de organismos internacionais, incluindo documentos do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, registraram práticas de violência e tortura contra opositores na Venezuela nos anos seguintes, citando abusos como choques elétricos, espancamentos e violência sexual.
O contexto venezuelano, porém, difere do brasileiro, segundo analistas e índices internacionais. Institutos como o V-Dem passaram a classificar a Venezuela como uma “autocracia eleitoral” antes de 2019; hoje, o Brasil é apontado pelo mesmo instituto como uma “democracia eleitoral” em processo de recuperação após pressões autoritárias ocorridas nos anos anteriores.
O resultado das eleições brasileiras de 2026 teve o reconhecimento de observadores internacionais, entre eles a OEA, e de mais de 100 países, segundo levantamento da CNN — entre eles nações governadas à direita, como Itália, Chile, Peru e El Salvador. A condução do pleito também foi validada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) durante o governo Bolsonaro.
Durante a campanha, Flávio Bolsonaro adotou discurso que procurou apresentar o país como se estivesse sob risco de autoritarismo e posicionou-se como único capaz de “resgatar a democracia”. Em entrevista concedida antes de oficializar sua candidatura, ele chegou a afirmar que o futuro ocupante do Planalto deveria, se necessário, recorrer à força para garantir um indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro — promessa reiterada ao longo da campanha.
O senador também citou, em sua carta, outros opositores venezuelanos que se declararam presidentes em pleitos não reconhecidos, como o caso de Edmundo González em 2024.
Nas eleições de 2026, opositores sem histórico golpista puderam concorrer livremente e o PL de Flávio Bolsonaro elegeu a maior bancada da Câmara, com 121 deputados. Apesar disso, a reação do senador deixou claro que ele não reconhece o resultado.
Enquanto isso, integrantes de seu entorno, como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, voltaram a afirmar no exterior que o STF enfrentaria dificuldades para aceitar uma eventual vitória de Flávio, reforçando a tensão entre setores do bolsonarismo e o Judiciário.
O episódio reacende debates sobre limites institucionais, comparações internacionais e os riscos de tentativas de paralisação das transições democráticas, temas que seguem no centro do debate político nacional.
Leia também: Padilha visita Hospital Israelita Albert Einstein e anuncia R$ 3,95 bilhões para projetos do Proadi‑SUS (2027–2029)










