A Human Rights Watch (HRW) afirma que nenhuma das mortes ocorridas durante a Operação Contenção aparece nas 4.400 horas de imagens de câmeras corporais de policiais militares analisadas pela ONG. O levantamento encontrou indícios de manipulação dos equipamentos e concluiu haver sinais de que parte das vítimas pode ter sido morta intencionalmente.
A operação, realizada nos complexos do Alemão e da Penha com o objetivo de cumprir cem mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho, completou um ano em 28.out.2026. Na ação, morreram 122 pessoas — entre elas, cinco policiais — tornando-a a mais letal já registrada no país.
Segundo o relatório da HRW, o governo do estado informou que 23% dos cerca de 2.500 agentes envolvidos na operação usaram câmeras corporais. A ONG analisou especificamente as gravações de 527 policiais que a corporação encaminhou à Defensoria Pública do Rio de Janeiro.
Em pouco mais da metade das filmagens disponibilizadas (55%), as imagens terminam ou apresentam lacunas significativas por volta do meio-dia — e a organização aponta que a maior parte das mortes ocorreu após esse horário. Em unidade do Bope responsável pela área onde ocorreram mais óbitos, as gravações consideradas utilizáveis acabam às 12h11.
A HRW relata que houve práticas como ligar os equipamentos antes do início da ação, esgotando as baterias; cobrir as lentes com as mãos ou outros objetos; remover as câmeras; ou deixá-las nas viaturas em momentos decisivos, como prisões, confrontos armados e entradas em residências. Em 36% dos casos em que houve registros de tiros, as lentes estavam obstruídas.
Um exemplo destacado pela ONG envolve um cabo do 22.º Batalhão: após aviso de “bateria fraca” às 10h17, ele cobriu a lente por nove minutos — período em que a HRW contabilizou mais de 40 disparos.
A organização também aponta falhas das investigações policiais. A Polícia Civil, segundo o relatório, não coletou informações básicas sobre 115 das 117 vítimas que não eram policiais, e os agentes responsáveis pelas mortes foram identificados apenas em dois desses casos. Nas cinco mortes de policiais, testemunhas foram identificadas.
Peritos consultados pela HRW, vinculados a um grupo independente do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, avaliaram que muitos dos ferimentos e padrões de projéteis são compatíveis com mortes intencionais. Os laudos de necropsia indicam que mais de 40% das vítimas não policiais foram atingidas na cabeça, mais de 60% receberam quatro ou mais disparos e quase 75% apresentaram ao menos um tiro nas costas. Em diversos casos, trajetórias de baixo para cima podem sugerir execução.
Em nota ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança Pública ressaltou que a Operação Contenção permanece em andamento e que, desde então, foram realizadas 78 ações direcionadas ao enfraquecimento da estrutura operacional e financeira do Comando Vermelho. As forças de segurança não responderam diretamente ao levantamento da HRW sobre as gravações; as polícias indicaram que apenas a secretaria daria posicionamento oficial.
O Ministério Público fluminense comunicou ter denunciado 28 policiais militares relacionados à Operação Contenção; todas as denúncias foram recebidas pelo Judiciário. Os crimes apontados incluem roubo, furto qualificado, violação de domicílio, constrangimento ilegal, peculato e descumprimento das normas de uso das câmeras corporais. O órgão também informou que 62 dos 685 policiais civis que participaram da operação utilizaram equipamentos de filmagem.
Sobre a compra de novos aparelhos, o secretário de Estado da Segurança Pública, Victor Santos, informou ao Ministério Público, em 20 de outubro, que a licitação de novas câmeras deve ser concluída em março de 2027.
Pesquisadores da HRW afirmam que as falhas no registro, na preservação dos locais e na coleta de informações essenciais impedem respostas a questões centrais sobre a dinâmica dos confrontos e a responsabilidade pelos óbitos. A organização alerta que práticas policiais irregulares comprometem a segurança pública e a confiança da população nas instituições.
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