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Flávio Bolsonaro passa a responder a dois inquéritos sem foro especial a partir de fevereiro

Flávio Bolsonaro passa a responder a dois inquéritos sem foro especial a partir de fevereiro

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na disputa presidencial para Lula (PT), enfrenta duas investigações criminais que seguirão sem foro especial quando seu mandato terminar, em fevereiro. Nesta segunda-feira (26.out.2026) a Polícia Federal o intimou, apreendeu seus passaportes — comum e diplomático — e o proibiu de deixar o país por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Se tivesse vencido a eleição, Flávio teria protegido-se, temporariamente, de processos penais por fatos anteriores ao eventual mandato que não tivessem relação com o cargo. Com a derrota, essa possibilidade deixa de existir e, ao perder o assento no Senado em fevereiro, ele também perderá o foro especial que detinha desde que assumiu cargos eletivos, pela primeira vez sem mandato desde 2002.

Investigação ligada ao Banco Master e ao filme “Dark Horse”

Um dos inquéritos apura suposto pedido de recursos feitos por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com a justificativa de financiar o longa “Dark Horse”, sobre o ex‑presidente Jair Bolsonaro. O senador e Vorcaro são investigados sob suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Reportagens anteriores indicam que Flávio negociou diretamente com Vorcaro repasses equivalentes a pelo menos US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 122,7 milhões na cotação citada na apuração) para a produção do filme. Parte das apurações já teria elementos para avançar contra Vorcaro por evasão de divisas, enquanto o mapeamento integral do dinheiro enviado aos Estados Unidos e possíveis conexões com o senador ainda depende de informações em análise.

Em 16 de novembro de 2025, na véspera da prisão de Vorcaro e da liquidação do Banco Master pelo Banco Central, trocou mensagens com o banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!” — trecho que consta nos autos relacionados às investigações.

No Supremo, o procedimento que relaciona o caso Master ao financiamento do filme esteve inicialmente sob relatoria do ministro André Mendonça, mas o presidente da Corte, Edson Fachin, determinou em setembro a remessa dos autos para o gabinete dele.

Inquérito sobre Willer Tomaz e suposta lavagem de dinheiro

O segundo inquérito, sob relatoria de Alexandre de Moraes, investiga a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz. A apuração, que trata de suspeita de lavagem de dinheiro, avançou após a apreensão do celular de Willer na chamada Operação Sem Desconto — que investiga fraudes relacionadas ao INSS — e a análise do aparelho teria revelado movimentações financeiras consideradas suspeitas.

De acordo com a investigação, foram encontrados registros de encontros e festas envolvendo os dois, documentos pessoais vinculados a Flávio no iCloud de Willer e fotografias do senador. Há apontamentos de que as famílias de ambos viajaram com passagens compradas pela Cathedral Holding — única acionista da Rede Loto, controladora da casa de apostas BestBet — e de que os interlocutores se comunicavam por meio do aplicativo Confide, que apaga mensagens após a visualização.

Os autos também indicam que Flávio teria tido acesso como “usuário master” à conta bancária de uma holding vinculada a Willer, a Alcazar, o que lhe conferiria poder operacional sobre os recursos. Em maio de 2025 foi solicitada a exclusão do senador dessa conta, informação que, segundo a Polícia Federal, sugere vínculo operacional até então. Com base nesses elementos, a PF afirma haver indícios de proximidade e possíveis vínculos econômicos entre Willer e Flávio.

Foi nesse inquérito que Moraes determinou a apreensão dos passaportes do senador e proibiu o contato entre os investigados.

Posicionamentos

Flávio Bolsonaro negou irregularidades nas duas frentes. Em nota, afirmou que o filme sobre seu pai recebeu apenas recursos privados, defendeu “transparência total sobre o assunto” e declarou que “não tem nada de errado em relação ao filme”. Sobre as informações que o ligariam a contas e acessos em holdings de Willer, a defesa do senador afirmou que tais afirmações são falsas e as classificou como tentativas de espalhar “fake news” no período eleitoral.

A defesa de Willer Tomaz, por sua vez, afirmou que todas as empresas e participações do advogado são legítimas, registradas em documentos públicos e declaradas ao Imposto de Renda, negando existência de sócios ocultos ou patrimônio não declarado. Acrescentou que a relação entre Willer e Flávio seria de amizade entre famílias e que a investigação, quando conduzida com acesso aos autos e ao contraditório, demonstrará a regularidade das operações.

Próximos passos

Com a perda do mandato, Flávio deixará de contar com foro privilegiado em fevereiro, o que alterará o rito e o juízo de eventual processamento penal. As investigações continuam em curso na Polícia Federal e no Supremo, e os desdobramentos dependerem de diligências em andamento e de decisões dos magistrados responsáveis pelos autos.

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via Folha de São Paulo

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