Rosana Pinheiro-Machado — 27.out.2026 às 16h00
A rápida transformação do mundo do trabalho — marcada pela expansão dos microempreendedores individuais (MEIs), pela proliferação de trabalhadores de plataformas e por discursos meritocráticos difundidos por coaches e influenciadores — esteve muito perto de alterar de forma decisiva o resultado das eleições de 2026. Nas urnas e nas ruas, esse segmento mostrou que pode tanto consolidar a defesa da democracia quanto abraçar narrativas autoritárias quando se sente desamparado.
Em levantamento conduzido pela autora com quem ascendeu economicamente nos últimos anos, emergiu um grupo dividido: metade reconhece a combinação entre esforço individual e políticas públicas como motor da mobilidade social e foi às ruas em defesa da democracia; a outra metade enxerga o Estado como ausente, sente-se atraída por propostas ultraliberais ou por candidaturas populistas e, em muitos casos, não compareceu às urnas.
Essa segunda parcela esteve entre os eleitores que migraram para o discurso de projetos ultraindividualistas e que tiveram como opções no pleito nomes vinculados ao PL e a outras candidaturas de perfil conservador, como a de Flávio Bolsonaro. Em paralelo, a emergência de figuras como André Janones evidencia o papel central dessas camadas na dinâmica eleitoral recente.
Ao mesmo tempo em que a mobilização pró-democracia foi uma resposta importante — trouxe multidões às ruas, ampliou a participação e mobilizou famílias inteiras — ela não resolve as fragilidades estruturais geradas pela ‘uberização’ da economia. A perda de vínculos formais de emprego, a precarização e a crença numa prosperidade individual por meio do empreendedorismo criaram um terreno fértil para discursos autoritários e para a expansão de uma subjetividade antidemocrática entre trabalhadores que se consideram autossuficientes.
Algumas conquistas recentes demonstram, porém, que políticas públicas ainda fazem diferença concreta: a decisão pelo fim da escala 6×1 foi apontada como uma vitória significativa para trabalhadores formais, e medidas como o perdão de dívidas de MEIs e a ampliação da cobertura a microempreendedores individuais, sancionadas por Lula na reta final da campanha, são passos importantes na tentativa de responder a essa nova realidade.
MEI (microempreendedor individual) é a categoria legal que reúne pequenos empreendedores formais com receita limitada; políticas que melhorem sua proteção social e acesso a serviços têm impacto direto sobre milhões de trabalhadores informais que hoje transitam entre autonomia e vulnerabilidade.
Para transformar a fragilidade política em oportunidade de fortalecimento democrático, as medidas precisam ir além de programas isolados. O governo deve combinar três frentes:
- Ampliar oferta de empregos com salários dignos e condições de trabalho que reduzam a pressão para a informalidade;
- Fortalecer políticas dirigidas a autônomos e trabalhadores de plataforma — por exemplo, comunicação clara sobre perdão de dívidas e ampliação da proteção a MEIs, e programas de qualificação gratuitos e massivos;
- Promover coordenação interministerial para criar sistemas integrados de apoio (assistência, capacitação, acesso a crédito e regulação das plataformas), evitando que iniciativas fiquem isoladas e pouco visíveis à população.
Além disso, é preciso oferecer alternativas à educação empreendedora privada dominada por influenciadores que vendem soluções fáceis: plataformas públicas de capacitação podem transmitir habilidades técnicas e valores coletivos, reduzindo a dependência de cursos pagos que muitas vezes alimentam narrativas individualistas e antidemocráticas.
O momento político exige urgência. A volta do PT ao poder depois de um período de crise institucional e de um governo de perfil bolsonarista ocorre em um Brasil marcado pela transformação do trabalho. Reconquistar a confiança dos trabalhadores informais e aspirantes a empreendedores passa por demonstrar com clareza e rapidez que o Estado protege e amplia oportunidades — não apenas por meio de discurso, mas por políticas efetivas e coordenadas.
A plataformização do trabalho continua sendo uma bomba-relógio política: não explodiu nas eleições de 2026, mas deu sinais de que pode fazê-lo se não houver respostas concretas e articuladas. Priorizar informais, autônomos e MEIs é, portanto, prioridade para reduzir a polarização e fortalecer a democracia nos próximos anos.










