Luiz Inácio Lula da Silva saiu vitorioso do segundo turno, mas a manutenção do apoio da chamada classe C não é automática. Em grande parte, o voto foi motivado pela percepção de que o atual governo representa a opção mais segura diante das incertezas apresentadas pelo adversário, e não por um entusiasmo incondicional com a gestão.
Essa conclusão emerge de observações qualitativas realizadas pelo Instituto Locomotiva e do comportamento do eleitorado nas últimas semanas: muitos eleitores avaliaram o custo de trocar programas sociais e benefícios já conhecidos antes de optar pela mudança. A comparação entre quem já conhece a administração e um candidato ainda em processo de construção pública pesou na decisão final.
Um exemplo ilustrativo citado durante as pesquisas é o de Neide, manicure no Jardim Elvira, em Osasco. Mulher da chamada classe C que organiza o trabalho pelo WhatsApp, depende de programas como Farmácia Popular e reclama do aumento das contas domésticas. Para ela, a pergunta doméstica foi decisiva: se a alternativa promete conservar políticas que já ajudam, por que arriscar a troca?
Os três mandatos anteriores de Lula influenciaram essa escolha: ele já tinha histórico e modus operandi conhecidos pelo eleitor. Flávio Bolsonaro, por sua vez, apareceu mais ao longo da campanha e levantou dúvidas sobre consistência e viabilidade de promessas, o que levou parte do eleitorado a preferir a continuidade, ainda que com ressalvas.
Do ponto de vista eleitoral, houve maior participação no segundo turno: o Tribunal Superior Eleitoral registrou quase 3 milhões de eleitores a mais nas urnas. Além disso, a mobilização presencial e digital teve papel relevante — o grupo de WhatsApp conhecido como “Exército do Lula”, organizado por André Janones, chegou a reunir mais de 10 milhões de seguidores, transformando apoiadores em multiplicadores nos comícios porta a porta e em contatos pessoais.
Nas conversas conduzidas pelo Instituto Locomotiva durante os debates, Lula foi percebido como mais capaz de falar de emprego, renda e problemas concretos do cotidiano, enquanto o adversário sofreu com mudanças de discurso que geraram desconfiança. Esse equilíbrio entre rejeição ao adversário e reconhecimento do que já existe em benefício das famílias explicou o voto de uma parcela decisiva da classe C.
À noite da vitória, Lula afirmou: “Esse mandato vai ser o mandato em que eu mais vou ouvir o povo brasileiro”. Para que essa promessa se traduza em fortalecimento eleitoral, será necessário transformar a escuta em decisões visíveis e em políticas que reduzam a sensação de risco associada à alternativa perdida.
Em resumo, a vitória aconteceu porque muitos escolheram a opção conhecida diante do incerto. O desafio agora é converter essa cautela em apoio efetivo: não basta ser a escolha menos arriscada; é preciso entregar mudanças tangíveis que respondam às preocupações da classe C sobre trabalho, renda, segurança e custos do dia a dia.
Renato Meirelles, publicitário e presidente do Instituto Locomotiva. Texto publicado em 27.out.2026.
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