Uma verificação de documentos e publicações realizada nesta quarta-feira (28) encontrou ao menos quatro versões diferentes da carta divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) em que ele contesta o resultado da eleição. As alterações incluem troca do brasão no topo da página, edições de trechos em que se apresenta como “presidente eleito” e, posteriormente, como “líder do Brasil”, além de mudanças de formatação do nome ao final do texto.
Flávio Bolsonaro foi derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25) e deixou o Brasil com destino aos Estados Unidos. Na carta, ele afirma pretender liderar a oposição a partir do exterior e repete alegações de fraude eleitoral para as quais não foram apresentadas provas.
Principais evidências e cronologia
- Foram observadas duas versões em PDF atribuídas a aliados do senador e duas versões da publicação no X (ex-Twitter): a original e uma edição posterior.
- Um dos PDFs registra data de criação às 16h38 (horário de Brasília). Nesse arquivo, o documento traz a expressão “verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
- A publicação no X foi feita às 17h19, cerca de 41 minutos após a criação do PDF; o post foi editado às 17h41. Na edição, a abertura passou de “verdadeiro presidente do Brasil” para “líder do Brasil” e, em outro trecho, a frase “eu sou o presidente eleito” foi substituída por “eu sou o líder”.
- Um dos PDFs contém metadados que indicam uso de uma credencial digital da OpenAI com assinatura validada, mas o registro não esclarece se o texto foi gerado pela ferramenta (ChatGPT) ou se apenas foi usado para compor ou autenticar o arquivo.
Mudanças no brasão e observações históricas
Em uma versão do PDF o brasão no alto da página traz a inscrição “Estados Unidos do Brazil” (com z), expressão adotada após a Proclamação da República, em 1889. Outra versão do documento exibe o brasão com a inscrição atual, “República Federativa do Brasil”. A análise técnica indica que o brasão antigo foi coberto por um retângulo, sobre o qual se colocou o novo brasão.
Vale lembrar que a substituição formal por “República Federativa do Brasil” foi determinada por norma de 1968, e que a grafia “Brazil” (com z) já vinha sendo substituída por “Brasil” nas publicações oficiais conforme decreto de 1931.
Outros aspectos identificados
- Uma das versões em PDF traz registro de data de criação; a outra não apresentou dados de criação ou modificação identificáveis.
- Além das alterações textuais, houve mudança na formatação do nome do senador ao final da carta: inicialmente centralizado e em negrito, passou a aparecer alinhado à esquerda, sem destaque.
Reações dentro do campo político
Aliados próximos a Flávio se distanciaram das alegações de fraude. O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha, descreveu a carta como um “desabafo” e afirmou que nem ele nem o PL podem sustentar que houve fraude na eleição, por falta de provas. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse compreender a indignação de Flávio, mas defendeu o respeito ao resultado das urnas: “A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente”.
As discrepâncias entre as versões do documento e as edições na rede social reforçam dúvidas sobre a origem e a montagem final da carta, incluindo o papel de ferramentas digitais mencionadas no arquivo. A divulgação e as mudanças ocorreram no mesmo dia em que o senador deixou o país rumo aos Estados Unidos, após o resultado da disputa presidencial.
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