Dois dias depois de receber 59.826.041 votos nas eleições e ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 25 de outubro de 2026, o senador Flávio Bolsonaro deixou o país rumo aos Estados Unidos. A saída, apresentada por apoiadores como resposta a uma alegada perseguição política, já provoca efeitos imediatos na articulação da direita brasileira.
O episódio revive padrões recentes do clã Bolsonaro: no fim de seu mandato, Jair Bolsonaro também seguiu para os EUA em um autoexílio que gerou controvérsia; antes, o ex-presidente teve episódios de confronto com medidas de controle, como a tentativa de romper uma tornozeleira eletrônica. Outro irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, havia buscado refúgio nos EUA anteriormente e passou a atuar a partir de lá junto a aliados internacionais.
Relatos de aliados e movimentações diplomáticas mencionam nomes como Marco Rubio e outros atores conservadores estrangeiros como interlocutores da família. Fontes próximas ao grupo dizem que essa rede externa participou de articulações que cercam a saída de Flávio, informação que ainda está sendo verificada pelas autoridades brasileiras.
No plano interno, a decisão do senador cria um dilema para a base bolsonarista. Parte do núcleo do campo conservador — segundo relatos, inclusive o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) — tentou conter iniciativas jurídicas para anular o resultado eleitoral e pediu moderação. Em um vídeo divulgado após a notícia da partida de Flávio, Tarcísio afirmou reconhecer a eleição, apontou problemas no pleito e pediu que o país siga em frente, sem mencionar diretamente a fuga.
A convivência entre cobrança de fidelidade do núcleo bolsonarista e o receio de manter ao redor da sigla figuras consideradas “tóxicas” deixa aliados em situação conflituosa: abandonar Flávio pode afastar parcela expressiva do eleitorado que o apoiou; mantê‑lo, porém, alimenta a radioatividade política do clã.
Há também impacto jurídico e institucional. A atuação do ministro Alexandre de Moraes no caso Master vinha sendo um dos principais pontos de atrito com o bolsonarismo; ao intensificar procedimentos contra Flávio logo após a eleição, o Supremo alimentou a narrativa de perseguição, independentemente da existência ou não de culpa provada. A presença de uma bancada bolsonarista mais robusta no Senado deve manter viva a pauta de contestação ao ministro, enquanto a possibilidade de medidas cautelares — como a eventual exigência de entrega de passaportes — segue no radar das autoridades.
O episódio cria riscos também para o presidente eleito. A possibilidade de atores externos, e de vozes internacionais simpáticas ao bolsonarismo — citadas por aliados como Donald Trump, Steve Bannon ou Javier Milei — abraçarem a versão de “caça às bruxas” pode transformar uma disputa interna em crise diplomática nas primeiras semanas do quarto mandato de Lula.
Em síntese, a saída de Flávio Bolsonaro para os EUA, às vésperas de um novo ciclo político, complica a recomposição da direita, tensiona relações entre Poderes e abre caminho para uma eventual escalada com repercussões internacionais, num momento em que o governo recém-eleito busca estabilidade.
Por Igor Gielow — São Paulo, 27.out.2026 às 19h30
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