As transformações no espaço público nas últimas décadas tornaram a democracia mais permeável a vozes que antes estavam fora do circuito político tradicional. Onde antes o debate era moldado por partidos, jornalistas, intelectuais e líderes sindicais, hoje plataformas digitais permitem a expressão direta de grupos e movimentos ainda em processo de organização.
Esse deslocamento alterou a mecânica das campanhas e a dinâmica eleitoral: a oferta de escolhas pelos partidos, que funcionava como um “cardápio” de opções, foi complementada — e em parte contestada — por atores digitais que insistem em pautas muitas vezes desarticuladas ou exclusivamente destrutivas em relação a instituições que os deixaram à margem.
No Brasil, a incapacidade de parte das lideranças tradicionais de se adaptarem às novas formas de comunicação ficou evidente na campanha recente. A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno disputado no domingo, 25 de outubro de 2026, foi influenciada de modo decisivo por uma mobilização massiva nas semanas finais — um esforço de rua e virtual que alguns analistas comparam, em intensidade política, ao movimento das Diretas Já que ajudou a consolidar a democracia brasileira a partir de 1985.

Uma parte relevante dessa energia eleitoral veio de movimentos estudantis e de lideranças emergentes nas redes. Entre elas, o deputado federal André Janones (Rede-MG) assumiu papel de destaque ao mobilizar uma base digital ativa, demonstrando que a internet consolidou-se como ferramenta eleitoral capaz de influenciar resultados.
O desafio imediato para a coalizão vencedora é converter esse ímpeto — cuja linguagem nas plataformas tende a ser simplificada e agressiva — em proposições claras de políticas públicas e canais institucionais de participação. Se bem canalizada, essa renovação pode fortalecer o campo democrático; se mal aproveitada, corre o risco de se limitar a manifestações reativas.
Por outro lado, o campo derrotado enfrenta dois dilemas interligados. O primeiro é transformar a força eleitoral conquistada no Legislativo em atuação menos pautada pelo rancor e mais orientada a projetos e debates públicos construtivos. O segundo consiste em superar a liderança personalista da família Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa conservadora organizada em moldes democráticos — algo inédito na trajetória política recente do país.
Em suma, o desfecho das eleições de 2026 mostra que o voto e o corpo a corpo continuam decisivos. A vitória foi, em larga medida, fruto de uma campanha que soube mobilizar simpatizantes nas ruas e nas redes. Fica a expectativa de que as próximas disputas ocorram num ambiente em que a alternância de poder seja tratada como elemento natural do regime democrático, e não como anomalia.
George Avelino — Professor da FGV-Eaesp e coordenador do FGV-Cepesp. Publicado em 26.out.2026 às 23h00.
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