Por Deborah Bizarria — Economista (UFPE), especialista em gestão pública pelo Insper e associada do Livres.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, em 25 de outubro de 2026, confirmou a força de uma mobilização social que defendeu, entre outras pautas, proteção ambiental, redução da pobreza e valorização da ciência. Esse apoio popular pode se transformar em instrumento para aprofundar políticas públicas, desde que movimentos e organizações convertam presença nas ruas em acompanhamento institucional e em pressão política coordenada.
No campo das políticas sociais, o reajuste de 15,04% do Bolsa Família é positivo, mas não basta para ampliar com segurança a renda das famílias e permitir que elas deixem os programas sociais. Para que a transferência de renda seja combinada com inclusão produtiva, é necessário construir percursos personalizados: oferta de creche e apoio ao cuidado, formação profissional adequada e acesso a vagas formais de trabalho, por exemplo, são determinantes para que aceitar um emprego seja uma opção viável.
Programas voltados ao empreendedorismo de baixa escala também precisam avançar. A iniciativa Acredita no Primeiro Passo, criada em 2024 para beneficiários do Cadastro Único, poderia ter ido mais adiante durante o mandato anterior. Políticas que promovam microcrédito, formação técnica e apoio à comercialização — articuladas por centros de referência social (CRAS), prefeituras e instituições como o Sebrae — aumentam as chances de sucesso dos microempreendedores individuais (MEI) e pequenos negócios.
Entre as medidas anunciadas na campanha, o Pix MEI de até R$ 5.000, prometido entre os turnos, deveria ser integrado a um acompanhamento do uso do recurso e da evolução da renda. Além disso, o Ministério do Trabalho precisa definir salvaguardas adequadas para trabalhadores por conta própria, considerando a diversidade de atividades e trajetórias de renda.
A agenda de cuidados, citada pelo presidente em seu discurso de vitória, reclama investimentos concretos: ampliar o atendimento infantil durante férias e contraturno, e fortalecer centros-dia para idosos com repasses que permitam aos municípios manter equipes e horários compatíveis com a jornada de trabalho das famílias. Essas medidas exigem ajustes orçamentários e coordenação com estados e municípios.
No campo ambiental, a redução do desmatamento registrada nos últimos quatro anos é um ganho relevante a ser preservado. Ao mesmo tempo, há tensão na proposta de descarbonização que convive com metas de ampliar exploração de petróleo e gás, refino e a volta da Petrobras à distribuição de combustíveis. Para conciliar esses compromissos, são necessárias trajetórias claras de emissões e critérios de avaliação que permitam comparar custos, riscos e retornos dos investimentos estatais frente a outras prioridades.
Na área da ciência e avaliação de políticas, ampliar gastos não basta: é preciso consolidar uma cultura de monitoramento e de uso de evidências. Reforçar equipes da Secretaria de Monitoramento e Avaliação, no Ministério do Planejamento, ampliar o acesso a bases de dados e empregar avaliações para corrigir políticas existentes e orientar o orçamento são medidas centrais para que decisões públicas produzam resultados mensuráveis.
Essas prioridades implicam escolhas orçamentárias difíceis. Grupos que se beneficiam de subsídios tendem a se organizar e a defender suas parcelas do orçamento; as famílias que se beneficiariam de um redirecionamento dos recursos estão dispersas. A mobilização que levou à reeleição pode, portanto, exercer papel político relevante ao dar visibilidade a essas disputas e ao articular demandas por serviços e oportunidades.
Organizar redes de cidadania — por tema e por território — e transformar apoio eleitoral em acompanhamento técnico e político do governo e do Legislativo será essencial para enfrentar resistências, especialmente em um Congresso com bancada de oposição. Sem essa articulação, a pressão popular corre o risco de se dissipar; com ela, a vitória nas urnas pode se converter em avanços concretos nas áreas social, ambiental e científica.
Foto: público aguarda chegada do presidente Lula na Avenida Paulista após a reeleição (25.out.2026). Crédito: Eduardo Knapp.
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