Levantamento que compila registros oficiais aponta que, entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, intervenções da Polícia Militar e da Polícia Civil em São Paulo resultaram, em média, em uma morte a cada 12 horas e 13 minutos. O índice, apurado considerando ocorrências em serviço ou fora dele, representa um aumento expressivo em relação ao cenário anterior.
Especialistas e autoridades ouvidas destacam que a tendência mudou após 2022, ano em que foram reforçadas medidas para reduzir a letalidade policial. Em 2022 — último ano da gestão de João Doria e Rodrigo Garcia — o intervalo médio entre mortes em intervenções era de 20 horas e 48 minutos, o que equivale a uma frequência cerca de 70% menor do que a observada no período mais recente.
Os dados também mostram variações ano a ano: em 2023 a média foi de uma morte a cada 17 horas e 23 minutos; em 2024, caiu para uma a cada 10 horas e 48 minutos; o índice de 2025 ficou em uma morte a cada 10 horas e 30 minutos. No período de janeiro a agosto de 2026, sob o comando de Osvaldo Nico Gonçalves, a média registrada foi de uma morte a cada 12 horas e 9 minutos.
O levantamento destaca ainda episódios recentes que ilustram o padrão de ocorrências. Entre eles:
- 10 de outubro — Moema (zona sul): Gustavo Munis de Santana, 20 anos, morreu após abordagem policial em que agentes afirmam ter confundido o celular da vítima com uma arma. Registros apontam que oito policiais participaram da ação — quatro deles abriram fogo. Foram 45 disparos e, segundo a perícia, 27 ferimentos por projétil no corpo de Gustavo, incluindo cabeça, rosto e tórax. Familiares disseram que ele fazia uso de medicamentos para depressão.
- 3 de outubro — Vila Dionísia (zona norte): Antonio Nunes Batista, 40 anos, morreu depois de ser abordado por policiais. Um parente informou que ele tinha diagnóstico de esquizofrenia. O boletim relata que Batista portava uma faca e um garfo de churrasco; testemunhas registraram que, após cair no chão, os disparos continuaram. Três agentes efetuaram 24 tiros; antes do uso de arma de fogo, houve emprego de arma de eletrochoque.
- 15 de outubro — Parque São Domingos (capital): Camila Pereira da Silva foi atingida por um tiro e morreu no local. Câmeras de segurança mostram a mulher caminhando com o que parece ser uma faca enquanto três policiais a acompanham e pedem que largue o objeto; não há imagens que registrem uso de arma de choque ou outra alternativa menos letal.
Pesquisadores em segurança pública atribuem parte do aumento à alteração de diretrizes adotadas a partir de 2023. Luís Flávio Sapori, professor da PUC Minas, avalia que houve uma guinada na política de gestão do uso da força — da ênfase em limitar abusos para uma postura mais centrada no enfrentamento ao crime — e que essa mudança tem impacto sobre a letalidade.
Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, afirma que a perda de prioridade em programas de gestão do uso da força — que combinavam câmeras corporais, equipamentos menos letais, apoio psicológico e punição de excessos — contribui para a maior tolerância ao emprego de força letal em nome do combate ao crime organizado.
O relatório cita também referência internacional: o departamento de polícia de Nova York registrou 21 mortes por disparo intencional em conflito nas categorias analisadas em 2023 e 2024, o que equivale a uma morte a cada 34,8 dias. A comparação, porém, é limitada pelas diferenças de população, abrangência geográfica e critérios de contabilização.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública confirmou os números consolidados e afirmou que qualquer avaliação deve considerar, além da letalidade, indicadores criminais, produtividade e as circunstâncias de cada ocorrência. A pasta destacou, sem explicar o motivo do aumento, que entre janeiro e agosto de 2026 houve crescimento de 4,36% nas prisões, 7,86% nos flagrantes lavrados e 12,83% nos inquéritos instaurados em relação ao mesmo período de 2025.
A secretaria informou ainda que a PM mantém protocolos e treinamentos que priorizam a verbalização, redução da tensão e emprego proporcional e necessário da força, com uso excepcional de armas de fogo. Segundo a pasta, mortes em intervenções são investigadas por corregedorias e comunicadas ao Ministério Público; eventuais desvios são passíveis de responsabilização. A corporação também disse oferecer atendimento psicológico e assistência social aos seus agentes e que planeja aquisição de mais 6.000 armas de eletrochoque.
As reduções de letalidade observadas em 2022 foram relacionadas a medidas adotadas desde 2020, como a instalação de câmeras nos uniformes, aquisição de equipamentos menos letais, apoio psicológico a policiais e análises específicas de intervenções com resultado de morte. Em setembro de 2022, a PM registrou 15 óbitos — o menor total para o mês desde 1994. Entre as iniciativas daquele período esteve a ampliação, em junho de 2021, do programa Olho Vivo, que passou a gravar todo o turno de serviço em batalhões selecionados.
Na sequência de 2023, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) indicou mudanças na liderança da segurança pública do estado. Ele nomeou para a pasta o oficial reformado da PM Guilherme Derrite, que havia sido afastado da Rota por episódios que lhe foram atribuídos como excesso de mortes em confrontos. Derrite comandou a secretaria de janeiro de 2023 até o início de dezembro de 2025; nesse período verificou-se aumento da frequência de mortes em intervenções, com a média anual se aproximando ou ultrapassando intervalos inferiores a 11 horas em 2024 e 2025.
O tema continua sob investigação e debate entre especialistas, autoridades e organizações da sociedade civil, que apontam para a necessidade de políticas que conciliem a redução da violência com a efetividade no enfrentamento à criminalidade e a proteção dos direitos humanos.
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