Por Peter Stebbings e Luna Lin
Hong Kong e Pequim | 29.out.2026
Os pedidos de desculpas apresentados por Kylian Mbappé, pelo Real Madrid e pela LaLiga após a divulgação de um vídeo em que o atacante parece zombar de Mao Tsé‑Tung terão efeito limitado na China, avaliam especialistas. Apesar do reconhecimento do erro, o estrago à imagem do jogador e das instituições ligadas a ele já provocou perdas comerciais e reação institucional no país.
O episódio
Na gravação que circulou esta semana, Mbappé diz que o meme mais engraçado que viu coloca seu rosto sobre o corpo de “um sujeito qualquer” que ele acreditava ser “um ditador chinês”. Mao, fundador da República Popular da China, é oficialmente tratado como herói da revolução —embora historiadores o responsabilizem por milhões de mortes— e qualquer afronta pública ao líder é um tabu que costuma gerar forte reação.
Consequências imediatas
Em poucos dias, marcas chinesas encerraram contratos com o jogador e a emissora estatal CCTV anunciou a suspensão da transmissão de partidas do campeonato espanhol. A mídia estatal e usuários das redes sociais intensificaram as críticas, enquanto um porta‑voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que Pequim levou “a sério” o pedido de desculpas de Mbappé.
O alcance comercial em jogo é grande: uma fonte da LaLiga afirmou que China e Estados Unidos representaram, juntos, a maior parte dos direitos internacionais de transmissão estimados em €748 milhões na temporada 2024/25. Segundo o jornal Marca, entre 10% e 15% das vendas de camisas e produtos licenciados do Real Madrid ocorrem na China. Entre os patrocinadores chineses do clube estão Hisense, Kaiyun Sports e Linglong Tire.
A difícil reparação de imagem
Analistas apontam que um pedido de desculpas rápido é necessário, mas insuficiente para encerrar a crise. “De um ponto de vista sereno, objetivo e livre de emoções, este é claramente um incidente muito prejudicial”, disse o comentarista esportivo Yan Qiang, observando que o episódio “causa graves danos à imagem da LaLiga e do Real Madrid na China”.
Adam Zhang, fundador da Key‑Solution Sports Consulting, com sede em Pequim, afirmou que demonstrar arrependimento sincero e ações concretas será determinante para decidir se as transmissões e parcerias serão restabelecidas e por quanto tempo eventuais proibições permanecerão vigentes.
Contexto histórico e precedentes
Especialistas relacionam o caso à crise enfrentada pela NBA em 2019, quando um tuíte do então gerente‑geral do Houston Rockets, Daryl Morey, acerca dos protestos em Hong Kong levou a liga a perder temporariamente acesso ao mercado e à programação estatal chinesa. Debby Chan, professora da Universidade Nacional da Austrália, descreve esse tipo de episódio como parte de uma “espiral de indignação” em que opinião pública nas redes e imprensa estatal se retroalimentam.
O que está em jogo
Além dos contratos com marcas e dos direitos de transmissão, a situação coloca em risco campanhas publicitárias em que Mbappé já figurava e as receitas associadas ao apelo comercial do jogador no maior mercado da Ásia. Yan Qiang afirmou que, embora Mbappé tenha “enorme influência” no país, será difícil prever se essa influência poderá ser totalmente preservada.
Especialistas ressaltam que, no curto prazo, as perspectivas não são otimistas: a imagem do jogador e o relacionamento comercial dependem agora das atitudes futuras de Mbappé, do Real Madrid e da LaLiga.
Enquanto autoridades chinesas avaliam as mensagens de desculpas, o futuro das transmissões e dos contratos permanece incerto, e a recuperação plena —se ocorrer— deverá demandar tempo e medidas concretas além das declarações iniciais.










