Ana Luísa Brito Furtado Pessoa, de 18 anos, é a idealizadora do Jovens Legisladoras, grupo que reúne adolescentes para identificar problemas locais, redigir minutas de projetos de lei e buscar parlamentares, preferencialmente mulheres, para protocolar as propostas em câmaras municipais, assembleias e no Congresso.
A iniciativa, criada em 2026, cresceu rapidamente: o projeto começou com núcleos em 16 estados e no Distrito Federal e já chegou a reunir 94 participantes; em levantamento mais recente a iniciativa contabiliza 123 meninas envolvidas e atua em mais de 25 cidades.
A motivação pessoal de Ana Luísa tem origem numa história de família: nascida por cesárea em 8 de dezembro de 2007 — o parto foi antecipado para que a avó, com câncer em estágio avançado, pudesse conhecê-la —, ela cresceu entre a zona rural de Lagoa Santa e a capital mineira. A experiência da adolescência, aprofundada pelo isolamento da pandemia de 2020, levou-a a buscar formas de se engajar e a transformar angústia em ativismo.
No grupo, coletivos estaduais trabalham temas locais: núcleos em Pernambuco escreveram um texto sobre mobilidade urbana; no Ceará, a pauta foi limpeza de oceanos; no Rio de Janeiro, propostas sobre saúde mental estudantil. Uma das propostas elaboradas pelo grupo foi protocolada em Juiz de Fora (MG) e prevê incentivo à capacitação de mulheres para atuar no turismo.
O coletivo também participou de tramitações legislativas já em curso. Ana Luísa integrou debates de um projeto apresentado pela deputada Célia Xakriabá (PSOL-MG) que objetiva mapear os impactos da crise climática sobre meninas e mulheres — a proposição teve aprovação na Câmara e segue em tramitação no Senado. Em junho, um projeto que institui oficialmente o programa Jovens Legisladoras foi protocolado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais; a deputada Lud Falcão (Republicanos) registrou na justificativa que a proposta fora enviada pelas participantes e destacou o estudo, a dedicação e a coragem das jovens.
O trabalho do grupo é apartidário: a escolha das parlamentares com quem as meninas trabalham leva em conta a afinidade com as pautas e a abertura para acolher propostas juvenis. As integrantes também acompanham debates nas casas legislativas e promovem interlocução com gestões locais para transformar as minutas em políticas públicas.
A trajetória da fundadora inclui engajamento estudantil e formação para atuação pública. Durante a pandemia ela relata problemas de saúde relacionados ao estado emocional, incluindo uma inflamação na coluna que exigiu cirurgia; a leitura intensa ajudou no enfrentamento. Ao retornar às aulas presenciais, reativou o grêmio estudantil, criou clubes e participou de simulações da ONU, atividades que lhe renderam convites para eventos internacionais, com oportunidades ligadas a universidades como Harvard e Yale.
Ana Luísa também atuou em projetos com apoio do escritório da ONU em Genebra, participou de iniciativas do movimento Girl Up e discursou na Câmara Municipal de Belo Horizonte sobre pobreza menstrual — a falta de acesso a absorventes e a condições sanitárias adequadas. Essas experiências a motivaram a priorizar direitos das mulheres e a estimular outras jovens a se engajarem na construção legislativa.
Apesar de reconhecer o ambiente dominado por machismo e misoginia — que se reflete em ameaças e ataques a vereadoras e deputadas —, Ana Luísa vê no engajamento uma forma de mudar esse quadro. Ela pretende cursar Direito, ampliar seus estudos no exterior e não descarta seguir carreira na política institucional no futuro.
Dados do programa
- Presença: núcleos em 16 estados e no Distrito Federal
- Participantes: 123 meninas envolvidas (informação mais recente)
- Atuação: elaboração de minutas e interlocução com parlamentares para protocolo em câmaras municipais, assembleias e no Congresso
- Exemplos de propostas: mapeamento dos impactos da crise climática sobre meninas e mulheres (apresentado por Célia Xakriabá), incentivo à capacitação feminina para o turismo (protocolado em Juiz de Fora) e instituição do programa Jovens Legisladoras na Assembleia de Minas (protocolado em junho por Lud Falcão)
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