Por Isabella Menon, Carolina Linhares e Laura Intrieri — Washington, Brasília e São Paulo
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se apresenta como “líder do Brasil” e anuncia a intenção de comandar a oposição a partir do exterior. Antes da versão final postada por ele, aliados divulgaram ao menos duas versões do documento que o descreviam como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”; ao todo, quatro versões diferentes circularam.
As primeiras versões, atribuídas a integrantes do entorno do senador, traziam o mesmo texto, mas brasões distintos: uma imagem antiga com a palavra “Brazil” (com z) e outra com o selo atual, “República Federativa do Brasil”. Flávio em seguida publicou uma versão em que se intitulava “verdadeiro presidente” e, depois, fez nova edição substituindo o termo por “líder do Brasil”.
Na carta mais recente, o senador afirma que continuará a disputar politicamente o resultado das eleições e pretende articular a oposição fora do país. Ele volta a alegar, sem apresentar evidências, que houve fraude no pleito, critica decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e agradece ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por acolher sua família no país.
Trump declarou a jornalistas nesta quarta que não pretende se envolver na crise política brasileira: “Não vou comentar sobre isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país, então veremos. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, com certeza”, afirmou.
Flávio desembarcou em Miami na manhã de quarta-feira após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina e embarcar em um avião privado com escala no Equador. A viagem ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinar a entrega dos passaportes do senador no âmbito de uma investigação que apura suspeita de lavagem de dinheiro; o senador nega irregularidades.
O deslocamento e o tom da carta representam uma guinada em relação ao discurso público de Flávio nos dias anteriores: ele havia dito que não deixaria o país e que desistiria de tentar anular a eleição. Na carta, no entanto, reafirma a contestação ao resultado e anuncia que vai “liderar a oposição daqui”.
Sobre a disputa eleitoral, o texto concentra críticas à decisão que autorizou a ampliação do horário de votação no segundo turno, sustentando que a medida teria causado uma “nulidade” — argumento central de sua contestação, embora dados oficiais apontem que apenas 34 mil votos (0,03% do total) foram lançados após as 17h no dia da votação.
No domingo (25), o resultado oficial deu a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva por uma diferença de 4,43 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro.
O senador também citou apoio recebido do presidente da Argentina, Javier Milei — por quem agradeceu “coragem, senso de justiça e legalidade” — e mencionou políticos e figuras que, segundo ele, foram perseguidos historicamente. Entre os exemplos citados por Flávio estão líderes exilados e opositores de regimes autoritários; ele mencionou, por exemplo, o caso de Juan Guaidó, que em 2019 se declarou presidente interino da Venezuela e chegou a ser reconhecido por diversos países.
Flávio dirigiu um apelo a parlamentares e governadores do bloco de apoio, com menção especial ao senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha. Na carta, disse apoiar Marinho como candidato ao comando do Senado e afirmou que “dirá o que vocês aí não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”.
O texto não detalha as medidas concretas da estratégia de mobilização da oposição nem explica se solicitará asilo político nos Estados Unidos ou quando pretende voltar ao Brasil. No fechamento da carta, o senador afirmou: “Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre.”
Dados e decisões citados na carta: o senador concentra críticas na ampliação do horário de votação no segundo turno e acusa o que chamou de atuação ilegítima de adversários políticos — acusações que, até o momento, não foram sustentadas por prova apresentada no documento.
- Chegada aos EUA: Miami, manhã de quarta (28.out.2026).
- Viagem: saída do Brasil pela Argentina; escala no Equador; embarque em avião privado.
- Medida judicial relacionada: determinação de Alexandre de Moraes para entrega de passaportes em investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro.
- Resultado da eleição: Lula venceu por 4,43 milhões de votos (25.out.2026).
- Votos após as 17h no dia da votação: 34 mil (0,03% do total).
- Composição do Senado no próximo ano: PL terá a maior bancada, com 29 de 81 senadores.
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