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André Janones diz ter virado ‘estrategista digital por acaso’ e transforma redes e confronto em capital político

André Janones diz ter virado ‘estrategista digital por acaso’ e transforma redes e confronto em capital político

Em entrevista por telefone a 27 de outubro de 2026, enquanto aguardava a decolagem para o Rio de Janeiro, o deputado federal André Janones, 42 anos, descreveu como a sua presença nas redes sociais se tornou o principal instrumento de atuação política.

Eleito pela primeira vez em 2018 pelo Avante após ganhar visibilidade com vídeos de apoio aos líderes da greve dos caminhoneiros e transmissões ao vivo de longa duração, Janones disse não saber explicar como passou a ser considerado um estrategista digital. “Aprendi fazendo”, afirmou, atribuindo seu ritmo acelerado à descoberta, há seis anos, de um diagnóstico de altas habilidades.

A dois dias da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Janones falou sobre o papel que assumiu na reta final da campanha: liderar a frente digital que, segundo ele, foi determinante para a virada sobre o candidato apoiado pelo PL. O canal conhecido como “Exército do Lula” chegou a reunir mais de 10 milhões de seguidores em menos de um mês e atraiu atenção e contatos de campanhas de esquerda no exterior, incluindo a do primeiro‑ministro espanhol Pedro Sánchez, recordou o deputado.

Autodidata em comunicação online, Janones afirmou nunca ter lido um manual sobre o tema. Para conter a intensidade das ideias, recorre a psicanálise —”agradeço primeiro a Deus e, em segundo, à psicanálise”, disse— e a uma rotina intensa de exercícios (musculação, boxe, corrida e pilates), atividades que chegaram a ser suspensas durante o período de campanha.

Natural de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, criado por mãe empregada doméstica e órfão de pai desde os 10 meses, o parlamentar descreve uma trajetória marcada por superação. Formado em Direito com bolsa parcial, trabalhou cobrando ônibus para bancar os estudos, presidiu o diretório acadêmico e atuou no movimento estudantil ligado ao PT.

Após uma tentativa frustrada de se eleger prefeito de Ituiutaba em 2016 pelo PSC, Janones relata que perdeu bens para saldar dívidas de campanha: “foi tudo embora”, disse sobre o período em que teve carro e casa retomados pelo banco. Anos depois, já como deputado, enfrentou investigação por suposta prática de rachadinha; ele enfim reconheceu parte das irregularidades e, em março de 2025, firmou um acordo com a Procuradoria‑Geral da República para encerrar a apuração, em que se comprometeu a pagar R$ 131 mil.

O deputado também é alvo de outras disputas judiciais: responde a ação no Supremo Tribunal Federal por injúria contra o ex‑presidente Jair Bolsonaro e foi condenado por danos morais por ofensas a eleitores do bolsonarismo. Em finais de 2024, sua ex‑mulher, a prefeita Leandra Guedes (Avante), apresentou denúncia por ameaças de divulgação de fotos íntimas; o processo corre em sigilo e resultou em medida protetiva que exige que Janones mantenha distância mínima de 300 metros da prefeita. Ele nega as acusações e afirma ter sido alvo de armação nas redes.

Sobre a postura combativa que marcou sua carreira online, Janones assume o custo: reconhece que ofensas e apelidos —entre eles o termo que atribuiu ao deputado Nikolas Ferreira— geraram processos e condenações, mas ressalta que paga o preço por aquilo que fez e disse. “A internet valoriza a vida real, com erros e imperfeições”, afirmou, rejeitando a ideia de se colocar como vítima.

Cinéfilo, ele se identifica com o filme À Procura da Felicidade, que vê como espelho de sua trajetória de resiliência. Na avaliação pessoal, a urgência de vencer foi matéria‑prima para a construção de sua carreira pública: “tive o privilégio de uma vida sem privilégios”, disse.

Com a reeleição do presidente Lula consolidada, Janones mantém agenda intensa: foi procurado por veículos e campanhas internacionais e afirmou que seguirá atuando nas redes para mobilizar apoiadores nas ruas. Aos críticos, responde que erra e aprende —e que esse acúmulo de experiências é parte de sua maneira de fazer política.

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via Folha de São Paulo

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