Publicado em 28.out.2026 às 22h10 — Buenos Aires
A bancada de oposição na Argentina intensificou nesta terça-feira (27) e nesta quarta-feira (28) uma série de ações para obter explicações do presidente Javier Milei sobre o papel do seu governo na saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil até os Estados Unidos.
Segundo apuração, foram identificadas seis iniciativas protocoladas por diferentes partidos: pedidos de esclarecimento, convocações de ministros ao Congresso e uma denúncia penal contra o próprio Milei, o chanceler Pablo Quirno, a ministra da Segurança Alejandra Monteoliva e o estrategista Santiago Caputo — este último apontado pela imprensa argentina como presença em Porto Iguaçu que teria auxiliado a família Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos na manhã de quarta-feira (28) após passagem pela Argentina e pelo Equador em condições não totalmente esclarecidas. Fontes oficiais e documentos apontam que ele entrou na Argentina às 23h52 de terça-feira, usando um passaporte italiano; partiu de Porto Iguaçu às 0h22 em um jato privado operado pela empresa Baires Fly S.A.; fez escala em Guayaquil (Equador) e pousou em Miami às 10h23.
Em carta publicada horas depois de chegar aos EUA, Flávio agradeceu a Milei pela “coragem, justiça e senso de legalidade”.
Germán Martínez, líder do bloco União pela Pátria — que reúne 92 das 257 cadeiras da Câmara dos Deputados e lidera a oposição — divulgou uma carta em nome de seu grupo e de outras bancadas cobrando que o Executivo responda aos requerimentos dos legisladores. No documento, a oposição exige, entre outros pontos, que o chefe de gabinete, o chanceler e a ministra de Segurança compareçam à Câmara dos Deputados para prestar esclarecimentos e pede que a Argentina reconheça a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras — reconhecimento que ainda não foi formalizado pelo governo argentino, segundo os parlamentares, enquanto outros países da região já o fizeram.
O deputado Esteban Paulón (Partido Socialista) apresentou duas iniciativas legislativas relacionadas ao episódio. Em uma delas solicita registros de entrada e saída de Flávio na Argentina entre domingo e a quarta-feira, além dos dados de movimentação da aeronave utilizada no trajeto. Em outra, protocolou uma denúncia por suposto encobrimento agravado, crime previsto no Código Penal argentino para quem ajuda alguém a eludir investigações ou subtrair-se à ação das autoridades.
A empresa Baires Fly S.A., operadora do jato usado no deslocamento, já havia sido mencionada em investigações sobre lavagem de dinheiro vinculadas a contratos públicos de insumos médicos, caso que no ano passado levou à queda do advogado Diego Spagnuolo, próximo a autoridades ligadas a Milei.
Deputados opositores também questionam procedimentos de controle migratório. Esteban Paulón afirmou que não houve aplicação de controles preventivos por parte da Polícia Federal, da Polícia de Segurança Aeroportuária e da Direção Nacional de Migrações do Brasil em relação à entrada e à saída de uma pessoa que, conforme informações públicas desde a tarde de segunda-feira, estava impedida de deixar o país e teve seu passaporte retido.
Além das ações parlamentares, dirigentes de partidos de esquerda reagiram criticando a postura do governo. Myriam Bregman, do PTS, afirmou que o episódio amplia uma contradição entre o discurso do Executivo — que prega linha-dura em segurança e punição — e ações de proteção a aliados. Bregman pediu ao Executivo que, em prazo de uma semana, informe detalhes sobre a entrada, o trânsito e a saída de Flávio e de sua família na Argentina, identifique funcionários que tinham conhecimento prévio da viagem e confirme se Caputo esteve no aeroporto de Porto Iguaçu.
Analistas e pesquisas recentes mostram desgaste da imagem de Milei. Uma compilação de 11 sondagens citada pelo jornal Clarín aponta que 57% dos argentinos desaprovam o governo e 57,2% têm uma percepção negativa do presidente. Em outra pesquisa, da consultoria Zuban Córdoba, 70,5% desaprovaram as críticas públicas de Milei a autoridades brasileiras durante o lançamento da campanha de Flávio em São Paulo, no final de julho.
O episódio e as cobranças ocorrem cerca de um ano antes das eleições em que Milei deverá disputar a reeleição para mais um mandato de quatro anos, o que acrescenta um componente político à crise. Parlamentares da oposição dizem que as medidas têm o objetivo de obter transparência sobre os fatos e avaliar eventuais responsabilidades administrativas e penais de membros do Executivo.
- Ações registradas: seis iniciativas entre pedidos de informação, convocações e denúncia penal.
- Perguntas centrais: horários e meios de entrada/saída de Flávio na Argentina; movimentação da aeronave; participação de assessores e funcionários; eventual atuação do governo argentino.
- Figuras citadas: Javier Milei, Pablo Quirno, Alejandra Monteoliva, Santiago Caputo, Germán Martínez, Esteban Paulón, Myriam Bregman.
As investigações e os pedidos de explicação seguem em tramitação no Parlamento argentino; até o momento não há registro público de respostas formais do presidente ou dos ministros convocados.
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