Após a confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, no domingo (25), integrantes de um grupo de WhatsApp formado por alunos do curso de medicina da Universidade de Santo Amaro (Unisa), em São Paulo, passaram a publicar mensagens ofensivas dirigidas a eleitores do petista, a nordestinos e a colegas bolsistas.
Prints e um vídeo com as trocas de mensagens foram obtidos por alunos. Quatro estudantes que participam ou participaram do grupo relataram os episódios à reportagem, mas pediram anonimato por temer represálias. Segundo eles, grande parte das postagens ocorreu entre domingo (25) e terça-feira (27).
O grupo, criado por estudantes para tratar de temas como divulgação de resultados do Enamed, discussões sobre ensino e organização acadêmica, contava com 984 membros até a tarde de terça (27). De acordo com relatos, a política não era assunto habitual até o resultado eleitoral; a discussão começou com figurinhas relacionadas a Jair Bolsonaro e evoluiu para ataques direcionados.
Entre os conteúdos reunidos pelos alunos há um áudio marcado pelo WhatsApp como encaminhado com frequência em que um homem insulta moradores do Nordeste, em especial baianos, usando o termo “baianada”. Esse arquivo recebeu ao menos 11 reações — inclusive emojis de riso e aplauso — mas não é possível confirmar que a voz seja de um integrante da Unisa.
Outras mensagens atribuíram a vitória do PT a locais com maiores índices de analfabetismo, trataram eleitores como beneficiários de programas sociais e mencionaram alunos do Prouni (programa federal de bolsas) e o uso de transporte público para chegar à faculdade. Houve quem dissesse que não compraria mais nada de colegas que votaram em Lula e até quem sugerisse que esses alunos deveriam vender lanches para pagar mensalidade.
Em diversas postagens surgiram ofensas homofóbicas e misóginas, memes que associavam o voto em Lula ao uso de drogas e a práticas sexuais, além de frases que evocavam violência — como menções a assaltos e expressões do tipo “paulada em comunista”. Em um print, um participante chama uma colega de “feia e gordinha” e sugere que ela deveria trancar o curso.
Alunos ouvidos afirmaram que também houve respostas agressivas de apoiadores de Lula dentro do mesmo grupo; um deles relatou ter saído do chat por cansaço diante dos comentários. Outra estudante descreve clima desconfortável em sala de aula: disse que, na segunda-feira (26), um colega afirmou que nordestinos são analfabetos.
Três dos entrevistados contaram que reuniram prints e uma gravação de tela com o áudio e encaminharam o material ao canal de denúncias da Unisa e às coordenações do curso. A coordenação teria orientado formalizar a queixa, procedimento que, segundo eles, foi realizado.
A instituição, em comunicado enviado aos estudantes, ressaltou que seu estatuto, regimento geral e normas repudiam qualquer forma de preconceito, discriminação, desrespeito ou intolerância, e afirmou que alunos se comprometem a observar esses princípios ao se matricular. A universidade também destacou que grupos de WhatsApp criados por estudantes são espaços privados, externos à instituição, e que a universidade “não possui acesso, alcance técnico ou prerrogativa legal para monitorar, administrar ou moderar o conteúdo neles veiculado”.
A reportagem procurou a Unisa por e-mail e por WhatsApp na terça-feira (27), sem retorno até a publicação.
Alguns alunos envolvidos dizem temer retaliação verbal ou física em razão das denúncias. O caso segue sob apuração interna, após a formalização das queixas junto às coordenações.
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