Há um ano da Operação Contenção — ação policial realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha que deixou 122 mortos, a maior tragédia em operações policiais do país — a investigação formal sobre as mortes segue em andamento e sem conclusão pública.
A apuração, conduzida pela Promotoria do Rio de Janeiro desde 1º de novembro de 2025, funciona sob sigilo e já reuniu centenas de elementos probatórios. Segundo documentos do processo, foram ouvidos 255 agentes e produzidos 117 laudos com escaneamento 3D dos corpos. A Polícia Federal concluiu perícia nas imagens captadas por câmeras de policiais civis, mas as cerca de 4.500 horas de gravação da Polícia Militar ainda não foram periciadas.
O que já foi identificado
Em uma análise preliminar das filmagens de 51 policiais do Bope — tropa que atuou na mata da Vacaria, local onde a maioria dos corpos foi encontrada — foram detectados indícios de obstrução intencional da imagem em 7,8% dos registros.
Até agora a Promotoria ofereceu 12 denúncias contra 28 policiais militares, aceitas pela Justiça, por crimes como peculato, furto, violação de domicílio, roubo qualificado e recusa de obediência. As investigações sobre as mortes permanecem em curso.
Perícias e remessa de laudos
Em 8 de outubro de 2026 o ministro do STF Alexandre de Moraes encaminhou à Procuradoria-Geral da República, sob sigilo, 118 laudos elaborados pela Polícia Federal: 12 referem-se a vídeos da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil e 106 a análises feitas a partir de fotos e laudos cadavéricos. Em abril de 2026, o ministro deu prazo de dez dias para o governo do Estado e para o Ministério Público identificarem trechos relevantes nas gravações da PM; a Promotoria respondeu que só poderá fazê-lo ao final das investigações, para individualizar com precisão o valor probatório dos trechos.
Depoimentos, câmeras e denúncias internas
- Até 22 de setembro de 2026 a Promotoria ouviu 45 familiares de vítimas.
- Segundo o órgão, 203 policiais militares dispararam armas durante a operação.
- Há registros e denúncias de retirada, obstrução ou uso inadequado de câmeras corporais: um sargento é acusado de ter removido a câmera em ao menos dez ocasiões; dez PMs do BAC foram denunciados por obstruir câmeras e entrar em residências sem ordem judicial; em outubro dois policiais passaram a responder por retirada dos equipamentos — um deles teria deixado a câmera dentro de uma viatura.
Relatos de moradores e familiares
Moradores da Penha participaram da retirada de muitos corpos na mata da Vacaria na madrugada e nos dias seguintes à operação. Erivelton Vidal, 49, disse que ajudou a remover cadáveres e que encontrou uma vala com seis corpos empilhados. Relatou ainda ter visto um corpo decapitado com a cabeça cravada em um tronco; ele refutou explicações de que o corte teria sido cometido por traficantes como forma de aviso.
Wellington Brito, de 20 anos, enviou mensagem à mãe na manhã de 28 de outubro de 2025 pedindo socorro, porque estava encurralado na mata da Vacaria; ele foi um dos 122 mortos. A mãe, Tauã Brito, mudou-se para a Região dos Lagos e participa de encontros mensais com outras mães que perderam filhos em operações, como forma de manter a memória das vítimas.
Casos de sobreviventes e atendimento
Nem todos os feridos morreram. Douglas Christian de Almeida, 30, morador de Inhaúma, sofreu disparos feitos por policiais militares e perdeu parte da mandíbula. Ficou 17 dias em coma e, ao acordar no hospital, estava algemado; relata ter sido tratado como suspeito e ter sido alvo de comportamento hostil por parte de agentes. Douglas escreveu o relato e o entregou a seu advogado; responde em liberdade, com tornozeleira eletrônica, e afirma ser inocente.
Medidas recomendadas e mudanças em curso
Em dezembro de 2025 a Promotoria recomendou a elaboração de um protocolo conjunto entre secretarias de Segurança, Polícia Civil e Polícia Militar para operações; em março de 2026 foram indicadas regras para o uso de câmeras corporais. Segundo a Promotoria, algumas medidas estão em andamento, como ampliação do número de câmeras e treinamento de agentes para socorro durante operações. O governo do Estado do Rio prevê contratar novas câmeras até março de 2027.
Impacto nas comunidades
Na Penha, moradores seguem sob a ameaça de novas ações policiais e convivem com a presença de homens armados nas vielas. Taís Silva, 35, que vive na comunidade desde criança, diz que as filhas perguntam sobre a violência e resume: “Quando solta o pau mesmo, só Jesus.” A sensação de insegurança e a memória dos mortos permanecem vivas na rotina local.
A investigação sobre a Operação Contenção segue tramitando, com perícias em andamento e processos em diferentes instâncias. Até que a apuração seja finalizada, as famílias das vítimas, moradores e a sociedade aguardam respostas e a responsabilização de eventuais ilícitos.
Leia também: Vacaria: da criação de animais ao tráfico — local da Operação Contenção que deixou 122 mortos










