Brasília e São Paulo
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou à Polícia Federal a abertura de um inquérito para apurar suspeitas de financiamento estrangeiro à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado por Lula nas eleições presidenciais de 25 de outubro de 2026. A decisão foi proferida em 27 de outubro de 2026.
Segundo a determinação, a investigação deve focar em dois eixos: indícios de tratamento desigual nas plataformas da Meta — dona do Facebook, Instagram e WhatsApp — e supostas transferências de recursos dos Estados Unidos por meio da Rockbridge Network, organização conservadora que pretende atuar no Brasil.
O ministro citou elementos que, na sua avaliação, aumentam os indícios de ingerência estrangeira no pleito e ressaltou que a interferência de países ou entidades externas em assuntos submetidos à soberania brasileira não pode ser tolerada. Dino também destacou que a Constituição veda o recebimento, por partidos políticos, de recursos de entidades ou governos estrangeiros.
Pedidos para que as autoridades investigassem as alegações foram apresentados pelas campanhas de Lula e do candidato Renan Santos (Missão). As representações apontam que a Rockbridge teria participado de tratativas visando apoio financeiro à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Documentos divulgados em setembro indicam que empresários ligados à Rockbridge teriam atuado como possíveis intermediários; entre os nomes mencionados estão Tallis Gomes e Pedro Sang. Em nota, Tallis Gomes negou ter exercido funções na Rockbridge ou participado de arrecadação ou doações para campanhas, e disse estar à disposição das autoridades para esclarecer os fatos.
Dino também registrou, como indício relevante, a circulação remunerada de conteúdos favoráveis à candidatura de Flávio por perfis sediados no exterior, sem identificação do pagador nem dos valores envolvidos. O ministro pediu apuração sobre se houve fornecimento efetivo de recursos — inclusive recursos humanos —, serviços ou outras vantagens à campanha do senador.
Além disso, a decisão menciona relatos de peritos das Nações Unidas sobre anomalias em plataformas digitais — como interrupções temporárias de contas e discrepâncias no engajamento e no alcance de publicações — que podem ter favorecido uma das candidaturas. Em reportagem com mensagens internas da Meta, funcionários teriam reconhecido que contas do candidato derrotado foram prejudicadas por restrições, com engenheiros atribuindo parte dos problemas a falhas técnicas; a empresa, por sua vez, negou interferência e afirmou cumprir as regras eleitorais.
O ministro determinou que a PF esclareça, entre outros pontos, possíveis assimetrias dolosas e manipulações algorítmicas por empresas de internet que possam ter alterado a igualdade de condições entre as campanhas. Dino também citou a preocupação com eventual vínculo entre apoio eleitoral e interesses econômicos de agentes estrangeiros em terras raras e minerais críticos no Brasil.
Na decisão, Dino invocou precedentes que tratam da proteção da soberania nacional — entre eles, uma ação originada do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) sobre interferência da Justiça britânica em casos relacionados ao desastre de Mariana — e lembrou decisões anteriores em que medidas foram adotadas para resguardar a autonomia do país frente a atos externos.
A campanha de Flávio Bolsonaro informou que não comentaria a decisão do ministro. A Polícia Federal terá agora a responsabilidade de reunir provas e esclarecer se as suspeitas configuram, de fato, financiamento ou outras formas de auxílio proibidas pela legislação eleitoral e pela Constituição.
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