Brasília — A senadora e ex-ministra da Segurança do governo de Javier Milei, Patricia Bullrich, afirmou nesta quarta-feira (28) que o resultado das eleições brasileiras deve ser acatado, num posicionamento que contrasta com a postura oficial de Buenos Aires.
Em publicação na rede X, Bullrich disse que a vontade das urnas precisa ser respeitada e acrescentou críticas ao uso de uma Justiça que, segundo ela, tem sido instrumentalizada contra adversários políticos ao comentar a saída do senador Flávio Bolsonaro do Brasil.
O Executivo argentino, por sua vez, optou por não reconhecer formalmente a vitória do petista e disse apenas que “tomou nota” do desfecho eleitoral.
Bullrich, que deixou o ministério em dezembro do ano passado para assumir a liderança do partido A Libertad Avanza no Senado pela Cidade Autônoma de Buenos Aires, tornou-se a primeira representante da sigla a reconhecer publicamente o resultado — sem, contudo, mencionar nominalmente o presidente eleito em sua mensagem.
Nos últimos dias, a senadora vinha se distanciando de Milei. Após a eleição brasileira, Bullrich não participou, em 26 de outubro, de uma reunião de gabinete do presidente; a Casa Rosada informou que sua ausência se deveu a “questões pessoais”. Reportagens argentinas apontaram, entretanto, que o afastamento se deve a divergências sobre ataques à imprensa e à preocupação de que o governo buscasse sustentar narrativas de fraude nas eleições brasileiras.
O posicionamento de Bullrich ocorreu no contexto da fuga de Flávio Bolsonaro. O senador deixou o Brasil pela fronteira terrestre com a Argentina na noite de terça-feira (27), acompanhado da esposa e das duas filhas, tendo entrado no país pela Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50, segundo a Direção Nacional de Migrações argentina.
Flávio utilizou passaporte italiano para a travessia e não passou por controle da Polícia Federal — procedimento que não é obrigatório em saídas terrestres. Às 23h30 ele embarcou em um voo privado operado pela Baires Fly S.A. com destino a Guayaquil, no Equador, conforme plano de voo apresentado às autoridades. A aeronave registrada é um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW. Após a escala, o senador seguiu para Miami, onde desembarcou às 10h23 (horário de Brasília).
A empresa Baires Fly S.A., que operou o jato, já apareceu em investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos de medicamentos e insumos médicos na Argentina — caso que provocou, em 2025, a demissão de Diego Spagnuolo, então diretor de uma agência ligada a deficiência.
Ao comentar o episódio de Flávio Bolsonaro, Bullrich afirmou que a democracia não pode se resumir a vencedores que governam e perdedores encaminhados à prisão, criticando o que classificou como uso de um Judiciário parcial para eliminar a oposição.
O episódio amplia tensões diplomáticas entre Argentina e Brasil após a eleição e evidencia fissuras dentro do próprio arco político do presidente Milei, que tem enfrentado críticas internas e repercussões de investigações sobre contratos públicos no país.
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