A Polícia Civil de São Paulo abriu inquérito para apurar hipótese de homicídio culposo na morte de Anderson Isach de Souza Gomes, 48, oficial de Promotoria de Tatuí (SP), ocorrida em 9 de novembro de 2025 no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).
Segundo o inquérito conduzido pelo 16º Distrito Policial (Vila Clementino), Gomes morreu por choque séptico e pneumonia causada por broncoaspiração, nove dias após submeter‑se a cirurgia robótica para tratamento de câncer de próstata em hospital particular — procedimento realizado em 31 de outubro de 2025.
O prontuário médico anexado ao processo e documentos apresentados pela família apontam divergências e falhas de comunicação entre equipes do HSPE após a transferência do paciente. A perícia contratada pelos parentes, assinada pela médica Jéssica Tioma Nakayama, concluiu que a morte decorreu de “erros médicos graves” e enumerou sete falhas consideradas determinantes para o desfecho.
Entre os pontos destacados pela perícia estão a alta concedida mesmo diante do diagnóstico de fístula vesical — vazamento de urina para a cavidade abdominal — e a demora de quatro dias para drenagem do extravasamento, o que, segundo o laudo, favoreceu a proliferação bacteriana e a evolução para choque séptico.
O caso começou depois que Gomes recebeu, em 2025, diagnóstico de câncer de próstata e procurou atendimento urológico no HSPE. Relatos da família e comprovantes juntados ao inquérito indicam que o urologista Thiago Hemerly o atendeu (ou que a consulta foi realizada por residente sob sua responsabilidade) e recomendou remoção do tumor por cirurgia robótica. Sem garantia de acesso à técnica na rede pública e diante de prazos incertos, o paciente optou por pagar pelo procedimento particular, cujo custo apontado nos autos chega a R$ 55 mil.
Após a cirurgia, realizada em 31 de outubro, Gomes recebeu alta no dia seguinte com sonda vesical. Na segunda‑feira seguinte começaram a aparecer sinais de complicação: hematúria (sangue na urina), hematoma abdominal, sangramento pelo pênis e dificuldade para evacuar. Prints de conversas anexados ao inquérito mostram orientações do urologista por mensagens, incluindo recomendações para aumentar a ingestão de água e uso de laxante.
Em sequência, o paciente teve quadro de dor intensa e foi levado ao pronto‑socorro do HSPE. Uma tomografia evidenciou fístula da bexiga. Conforme o prontuário, o cirurgião‑geral de plantão prescreveu analgésicos e deu alta, apesar de não constar parecer assinado por urologista no registro. A perícia da família aponta essa alta como o primeiro erro que contribuiu para a piora.
Nos dias seguintes, o quadro evoluiu: a sonda vesical travou, houve distensão abdominal e sinais de insuficiência renal iminente. O registro do hospital mostra discussão entre equipes — a urologia e o intensivista relataram cobranças mútuas sobre a conduta — e só na manhã de sexta‑feira a internação formal pela urologia foi efetuada. O paciente, então, passou por colonoscopia em leito de UTI sem intubação; durante o exame vomitou conteúdo fecaloide e broncoaspirou, desencadeando pneumonia aspirativa grave.
Foi realizada cirurgia de emergência para lavado abdominal; exames identificaram Klebsiella aerogenes no líquido peritoneal. Após sucessivas paradas cardíacas e febre alta, Anderson Gomes faleceu no domingo, 9 de novembro de 2025, às 16h30. Em depoimento à reportagem juntada ao inquérito, familiares afirmam que o contato com o cirurgião responsável ocorreu apenas uma vez, quando o paciente já estava em estado gravíssimo, na véspera do óbito. O médico Thiago Hemerly informou que aguarda intimação para depor no processo.
Além do inquérito criminal, a família ajuizou ação indenizatória contra o Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), órgão responsável pela administração do HSPE. O Iamspe declarou que apura internamente as circunstâncias do atendimento, colabora com a Justiça e apresentará esclarecimentos dentro do prazo legal.
O caso reacende questionamentos sobre a capacidade do HSPE de oferecer procedimentos especializados, como cirurgia robótica, e sobre a gestão de filas para procedimentos eletivos. Nos últimos anos, o hospital já foi alvo de reclamações e denúncias de insuficiência na assistência, incluindo relatos de sobrecarga e jornadas extensas de residentes.
O inquérito no 16º DP prossegue para estabelecer responsabilidades e verificar se houve desrespeito a protocolos clínicos que configurem crime por imprudência, negligência ou imperícia.
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