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Bolsonarismo adota batidas do funk mas ataca sua cultura: o paradoxo da campanha de 2026

Bolsonarismo adota batidas do funk mas ataca sua cultura: o paradoxo da campanha de 2026

Nas eleições de 2026, setores do bolsonarismo recorreram explicitamente ao repertório e à sonoridade do funk para impulsionar candidaturas, mesmo quando alguns de seus representantes haviam criticado ou combatido publicamente a própria cultura do gênero.

Um caso emblemático é o do deputado federal eleito por São Paulo Lucas Pavanato, que obteve votação recorde e, em maio, gravou um vídeo em frente à exposição “Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade” —aberta em novembro de 2025 no Museu da Língua Portuguesa— para questionar o conteúdo musical que, segundo ele, estaria presente em espaços culturais. A mostra, prevista para ficar em cartaz até agosto de 2026, foi encerrada antecipadamente em junho após pressões políticas.

Nas redes e em atos de campanha, Pavanato passou a incorporar elementos da estética funk —óculos estilo Juliet e caixas de som, entre outros— e a usar jingles que imitam timbres e efeitos típicos do chamado funk paulista. Um dos temas ligados ao deputado, intitulado “Corte Rápido (Funk do Pavanato)”, explora graves secos e assobios agudos semelhantes aos que fazem sucesso nas pistas.

O fenômeno não se limitou a Pavanato. Outros nomes do PL, como o deputado Nikolas Ferreira, também protagonizaram cenas de campanha embaladas por jingles no ritmo do funk, incluindo o sucesso que ficou conhecido como “Solinho do Fora PT”. Esse jingle reutiliza partes da faixa “Nova Geração”, de Jonathan Costa (anos 2000), e traz o bordão que viralizou nos palcos de entrega de voto.

Dados de consumo musical ilustram a presença do bolsonarismo nas paradas: no domingo em que o ex-presidente Lula derrotou Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, seis músicas associadas ao campo político que adotou o ritmo funk estavam entre as 50 faixas mais tocadas no Spotify.

Ao mesmo tempo, a apropriação sonora conviveu com discursos e ações repressivas dirigidas a festas e artistas do gênero. Pavanato, por exemplo, chegou a apoiar operações policiais contra bailes em bairros periféricos e foi relator da CPI dos “pancadões” na Câmara Municipal de São Paulo, cujas conclusões responsabilizaram o ambiente dos bailes por difusão de uma chamada “narcocultura” e por supostas legitimações da violência e do tráfico.

Críticos do bolsonarismo apontam que a estratégia busca extrair da música apenas um recurso instrumental —a batida—, sem reconhecer que letras, performances, DJs, MCs, dança e o próprio contexto social formam um conjunto inseparável da cultura funk. Para muitos produtores e artistas, a tentativa de isolar a sonoridade do seu ambiente é uma forma de apagar as origens e as vozes que deram origem ao estilo.

No campo artístico, o apoio ao ex-presidente Lula reuniu nomes relevantes do funk: MC Hariel, MC IG e Carol estão entre os funkeiros que defenderam o petista, e Carol compôs a faixa “Ele Investiu em Vc”, que figurou entre as 200 mais tocadas no Spotify no domingo da decisão presidencial. Em contraste, MC Mirella foi a funkeira de maior repercussão a declarar apoio ao bolsonarismo; a maioria dos funkeiros de expressão não se alinhou ao PL.

Outros gêneros musicais também participaram da disputa: o sertanejo concentrou grande parte dos artistas famosos que apoiaram Flávio Bolsonaro —entre eles Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, Marrone, Felipe Araújo e Ana Castela—, mas não gerou jingles tão presentes quanto os funks nas ruas e nas playlists da campanha presidencial.

As relações do universo do funk com atores políticos e empresariais são variadas. Em 2026, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), recebeu apoio da GR6, maior produtora do gênero, e episódios anteriores envolveram alianças entre produtores e candidatos. Também houve declarações controversas: o MC Ryan SP, investigado pela Polícia Federal por suposta ligação com um esquema de lavagem de dinheiro via apostas e rifas ilegais, declarou apoio a Pablo Marçal em disputa municipal, e produtores como Henrique Alexandre Barros Viana (conhecido como Rato), da Love Funk, chegaram a endossar campanhas que se aproximaram do PL.

Nas discussões sobre o conteúdo do funk, circulam leituras divergentes. Uma provocação do humorista Gabriel Nargas —de que o funk paulista seria um “braço do neoliberalismo” por exaltar o consumo e a ostentação— viralizou e foi rebatida por artistas como Hariel, que defende que a busca por bens materiais é também uma aspiração legítima de quem saiu da pobreza.

Para analistas culturais, o uso eleitoral do ritmo revela uma contradição: a eleição instrumentaliza a sonoridade popular ao mesmo tempo em que parcela do campo político procura controlar, regulamentar ou criminalizar os espaços em que o funk se produz. A questão central segue sendo se é possível separar a batida do seu contexto social sem remover vozes e sentidos que são constitutivos do gênero.

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via Folha de São Paulo

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