André Janones, 42, afirma que sua fama como estrategista digital nasceu da prática —e não de estudos— e que a presença intensa nas redes sociais foi decisiva na reta final da campanha do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista por telefone em 27 de outubro de 2026, enquanto aguardava decolagem de um voo para o Rio de Janeiro, o deputado traçou um panorama da trajetória que o levou do interior de Minas ao papel de pivô nas mobilizações online.
Eleito deputado federal pelo Avante em 2018 após ganhar visibilidade com vídeos e transmissões online durante a greve dos caminhoneiros, Janones fez transmissões longas já naquela época e adotou um tom de urgência para compartilhar informações. Quatro anos depois, como pré-candidato à Presidência pelo mesmo partido, abandonou a disputa para declarar apoio a Lula e assumiu responsabilidades pelas ações digitais da campanha.
No pleito de 2026, sob a legenda Rede-MG, o parlamentar foi anunciado entre os responsáveis pelo canal conhecido como “Exército do Lula”, que reuniu mais de 10 milhões de seguidores em menos de um mês. Segundo Janones, essa articulação teve papel importante na virada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e despertou interesse de campanhas de esquerda no exterior, incluindo a do primeiro‑ministro espanhol Pedro Sánchez.
Natural de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, onde cresceu em família humilde —a mãe trabalhou como empregada doméstica e o pai morreu quando ele tinha dez meses—, Janones afirma que a urgência moldou sua vida e sua forma de atuar. Advogado de formação, ele concluiu o curso com bolsa parcial e lembra de ter trabalhado como cobrador de ônibus para pagar mensalidades. Ainda jovem, presidiu o diretório acadêmico e participou do movimento estudantil, filiado ao PT.
Em 2016, concorreu à prefeitura de Ituiutaba pelo PSC e foi derrotado. Diz ter investido na campanha as economias que tinha: “o banco tomou meu carro, minha casa e voltei para a miséria”, afirmou ao relembrar o período. Anos depois, houve investigação sobre suposta prática de rachadinha em seu gabinete. Janones inicialmente negou as acusações, mas em 2025 firmou um acordo com a Procuradoria‑Geral da República para pagar R$ 131 mil e encerrar a apuração.
O estilo combativo nas redes rendeu a ele processos e condenações. Janones é réu no Supremo Tribunal Federal por injúria contra o ex‑presidente Jair Bolsonaro e já foi condenado a pagar indenizações por danos morais por ofensas dirigidas a apoiadores de Bolsonaro. Também se envolveu em polêmicas pessoais: no fim de 2024, sua ex‑mulher, a prefeita de Ituiutaba Leandra Guedes (Avante), apresentou denúncia em sigilo acusando‑o de ameaças com divulgação de fotos íntimas; o caso resultou em medida protetiva que obriga o deputado a manter distância mínima de 300 metros. Ele nega as alegações e afirma ter sido alvo de armação.
Sobre o próprio comportamento nas redes, Janones relativiza a noção de vítima e reconhece que suas reações têm custo. Afirma que responde a processos por ter dito coisas que não deveria, mas que aprende com os erros e os usa para se reinventar politicamente.
Ele conta que nunca leu livros específicos sobre estratégia digital e que aprendeu na prática, descrevendo‑se como autodidata. Há seis anos recebeu de um psiquiatra o diagnóstico de altas habilidades, o que, segundo ele, explica sua mente acelerada e a dificuldade para dormir. Para lidar com esse ritmo intenso, diz recorrer à psicanálise e manter rotina de exercícios —musculação, boxe, corrida e pilates— quando o calendário permite.
Cinéfilo, Janones cita o filme À Procura da Felicidade como referência pessoal por causa do tema da resiliência. Na campanha de 2026, registrou a viralização de termos e formatos surgidos em sua equipe, como a expressão “explode”, que atribui a um estalo criativo.
Mesmo com a visibilidade nacional e as controvérsias, o deputado segue consolidando sua presença nas redes como ferramenta política. Dois dias antes da entrevista, em 25 de outubro de 2026, imagens o mostravam comemorando a reeleição de Lula na avenida Paulista; o presidente chegou a agradecer publicamente o apoio de Janones pela coordenação digital na etapa final da campanha.
Na descrição que faz de si, Janones invoca a imagem do mineiro imaginado por João Guimarães Rosa: alguém criativo e intolerante à monotonia. Na política, conclui, são as redes e a habilidade de transformar conflito em mobilização que têm garantido sua sobrevivência pública.
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