No alto da Serra da Misericórdia, entre os complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, fica a área conhecida como Vacaria — oficialmente chamada Vila Marinha. O lugar, que conserva trechos de mata, currais e um campo de futebol, foi palco da chamada Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025.
A ação policial terminou com 122 mortos — 117 civis e 5 policiais — e é considerada a mais letal já registrada no país. Um ano após os confrontos, moradores relatam que a região ainda permanece sob controle de homens armados e que as apurações sobre as mortes não foram concluídas.
Em outubro de 2025, moradores organizaram a retirada dos corpos da mata; ao menos 60 corpos foram levados e expostos na praça São Lucas até o amanhecer de 29 de outubro. Testemunhos de comandantes do Bope e do delegado André Neves, apresentados ao Ministério Público, indicam que os policiais civis foram baleados ao entrar na área, situação que transformou a operação planejada em uma ação de resgate das equipes.
Na versão oficial divulgada na época, o então secretário da Polícia Militar, Marcelo Menezes, afirmou que a área havia sido escolhida por ser estratégica, com agentes do Bope encurralando criminosos. Moradores relatam que um policial civil com seis meses de corporação foi encontrado morto na mata.
Quem conhece a região desde antes da ocupação do tráfico descreve uma transformação gradual: Erivelton Vidal, 49, nascido e criado na Penha, lembra que o local foi chamado de Vacaria por abrigar muitos animais — vacas, porcos e chiqueiros. Joy Batista de Mancio, 70, recorda um passado rural, com mangueiras e produção de leite, e cita a mãe, Tereza, lembrada como a “síndica da Vacaria”.
Com o avanço do tráfico, o campo de futebol e os montes de areia deram lugar a casas e à expansão da comunidade em direção à mata. Dados da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara Municipal do Rio apontam que a área da Vila Marinha cresceu de 62.475 para 74.271 metros quadrados entre 1999 e 2022.
Na paisagem atual, uma pedreira em atividade deixa o ar carregado de pó nas partes expostas; na mata, a vegetação densa traz sensação de frio e neblina. No campo, crianças brincam descalças perto de churrasqueiras e de uma cobertura que protege contra sol e chuva, enquanto jovens transitam em motos e, segundo moradores, alguns ostentam fuzis.
Segundo investigações, o terreno de difícil acesso passou a ser usado pelo crime organizado para a realização de “tribunais do tráfico”. Moradores relatam sinal de celular precário, o que torna a comunicação com o exterior limitada em momentos de confronto.
O planejamento original da operação previa que a Polícia Militar cercasse a mata enquanto a Polícia Civil cumpria mandados nas residências. Depoimentos indicam que, ao entrar na mata, policiais civis foram alvejados — o que alterou a dinâmica da ação e elevou o número de mortos. Alega-se também que, por causa de tiroteio e escuridão, as forças de segurança não recolheram os corpos, e famílias afirmam ter sido impedidas de subir ao local.
Na sequência, parte dos moradores que participou da retirada dos corpos acabou sendo alvo de investigação pela 22ª Delegacia de Polícia, que instaurou inquérito por suposta remoção de cadáveres; essa investigação foi posteriormente suspensa.
Projetos de urbanização e lazer anunciados no passado não se concretizaram: em 2012 a prefeitura e a Caixa Econômica Federal anunciaram o Parque da Leopoldina, uma intervenção com equipamentos de lazer e educação ambiental em trecho da serra, mas o projeto não saiu do papel e os recursos foram devolvidos.
Moradores e lideranças locais também apontam para a presença de figuras ligadas ao comando do tráfico: Edgar Alves, conhecido como Doca, é apontado como chefe local e integrante do Comando Vermelho, e teria promovido eventos comunitários como churrascos e distribuição de brinquedos, segundo relatos.
Um ano depois da ação, a sensação de insegurança persiste. A mata, o campo e a pedreira — elementos que ajudaram a moldar a história rural do lugar — passaram a integrar um cenário urbano marcado por violência, disputas de território e lacunas nas investigações sobre a morte de 122 pessoas durante a Operação Contenção.
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