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Eleições em Israel 2026: por que as expectativas são baixas

Eleições em Israel 2026: por que as expectativas são baixas

As eleições gerais em Israel, realizadas em 27 de outubro de 2026, chegam envoltas em pouco otimismo. Embora exista consenso entre críticos sobre a necessidade de reverter anos de erosão democrática e de responsabilidade política, as chances de uma transformação profunda da política externa e de identidade nacional permanecem limitadas.

Em contraste, as eleições na Hungria, em abril de 2026, mostraram que regimes populistas podem ser derrotados por forças de centro-direita comprometidas com o combate à corrupção e a restauração institucional. Em Israel, contudo, a situação é mais complexa: a contestação a Binyamin Netanyahu não se traduz em uma oposição unificada capaz de impor uma virada clara.

Netanyahu acumulou poder explorando medos históricos e conflitos de identificação —entre o caráter nacional do Estado e as noções de identidade judaica— e consolidou bases eleitorais ao insistir que ameaças externas e hostilidade ocidental justificam medidas drásticas de segurança. Sua liderança também coincidiu com o avanço do nacionalismo religioso em esferas-chave, inclusive entre oficiais das Forças de Defesa de Israel.

O governo de Netanyahu enfrentou críticas severas após o ataque de 7 de outubro de 2023 e pelas prolongadas operações militares subsequentes na Faixa de Gaza, que, segundo organismos internacionais, registraram incidentes que podem configurar crimes de guerra. Essas campanhas e as reformas internas impulsionadas por seu bloco deterioraram a imagem de Israel no exterior e desgastaram o apoio internacional.

Pesquisas recentes descartam a probabilidade de o bloco de Netanyahu garantir maioria absoluta, mas sua queda não é automática. A estrutura do sistema de partidos em Israel e o perfil identitário do eleitorado significam que votações tendem a privilegiar lealdades culturais e religiosas, mais do que plataformas programáticas claras.

A oposição é heterogênea: reúne partidos de direita moderada, centro-direita, centro-esquerda e apenas um partido explicitamente de esquerda, os Democratas de Yair Golan. Entre suas prioridades estão a responsabilização de Netanyahu por falhas de segurança, frear reformas judiciais consideradas antidemocráticas e reduzir privilégios de grupos como a grande comunidade ultraortodoxa —aliada tradicional de Netanyahu—, exigindo que compartilhem o ônus do serviço militar e participem mais do mercado de trabalho.

Diante do empate projetado entre os dois principais blocos, surgem cenários distintos:

  • Formação de governo com apoio direto ou tácito de partidos árabes, algo politicamente sensível e contencioso para muitos setores da oposição;
  • Governo minoritário com suporte informal de parlamentares árabes para aprovar medidas pontuais, seguido de eleições antecipadas para buscar maior legitimidade;
  • Grande coalizão entre rivais, possivelmente com um acordo de rodízio na chefia do Executivo —uma solução já vista no passado israelense quando a divisão social é acirrada.

O presidente Isaac Herzog, que tem defendido conciliações em nome da unidade nacional, provavelmente atuará para viabilizar combinações que evitem o bloqueio político; porém, a esperança de um consenso amplo é limitada.

Mesmo no melhor dos desfechos plausíveis —um governo de oposição relativamente coeso— não se pode esperar o ressurgimento imediato da solução de dois Estados. Contudo, esse governo poderia iniciar passos pragmáticos: promover acordos temporários na Palestina ocupada, aceitar um papel maior e reformado da Autoridade Palestina na gestão de partes da Gaza pós-Hamas (uma peça central em propostas de paz recentes), e condicionar a retirada à comprovação do desarmamento do Hamas.

Política externa mais equilibrada implicaria também abandonar a doutrina de “defesa avançada” que racionaliza controle sobre territórios além das fronteiras reconhecidas, e retornar a uma estratégia baseada em dissuasão, zonas-tampão e acordos formais. Paralelamente, seria necessário conter a violência de colonos na Cisjordânia e frear o financiamento estatal de assentamentos considerados ilegais.

Restabelecer vínculo com os Estados Unidos, em particular com o Partido Democrata, e dialogar com atores internacionais influentes são medidas essenciais para recuperar a reputação israelense. Ao mesmo tempo, integrar a comunidade ultraortodoxa ao mercado de trabalho reduziria a carga fiscal e política que sustenta compromissos militares e expansivos.

A escolha que se desenha não promete uma revolução: Netanyahu deixou o país engolfado em compromissos estratégicos que superam a capacidade econômica e política que os sustenta, e corroeu a boa vontade externa de que Israel depende. Um novo governo dificilmente redefinirá por completo a política externa, mas poderia iniciar o processo de sair do atoleiro —e isso, dadas as circunstâncias, seria um avanço significativo.

Por Shlomo Ben-Ami
Historiador, ex-ministro das Relações Exteriores e negociador de paz de Israel.

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via Folha de São Paulo

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