Por Caetano W. Galindo — Professor da Universidade Federal do Paraná e membro do conselho curatorial do Museu da Língua Portuguesa; autor de ‘Latim em Pó’.
O retorno das cores e do perfume no ar costuma provocar uma espécie de alívio coletivo: aves voltam a cantar, flores abrem-se nas calçadas e até a cidade parece mais leve. Nesta última segunda-feira, 26 de outubro de 2026, Curitiba amanheceu com sol e uma sensação de alegria — detalhe que inspirou esta reflexão sobre a palavra que nomeia essa estação.
Ao caminhar cedo pela rua XV de Novembro a caminho da universidade, percebi como certos nomes carregam em si imagens e ritmos que nos lembram tempos e sensações. A palavra “primavera”, em particular, reúne história linguística e associação cultural ao que entendemos por renascimento, beleza e esperança.
Para entender por que ela carrega esse significado é preciso recuar à língua dos romanos. Na concepção latina tardia a temporada quente era frequentemente chamada de ver — termo ligado a um conjunto de meses quentes. O latim também possuía a palavra aestus, associada ao calor intenso; dela derivaram vocábulos ainda presentes em línguas como o italiano, o francês e o catalão (estate, été, estiu) e no nosso próprio léxico com palavras como estio e estiagem.
Os romanos falavam de períodos quentes como tempus veranum — os “tempos de ver” — e dessa expressão vem o que hoje conhecemos por verão. Já o nome da estação da floração tem outra gênese: os meses iniciais desse ciclo eram entendidos como os “primeiros verões” — no latim vulgar, uma construção que passou por alterações morfológicas e fonéticas e acabou consolidando-se como prima vera, isto é, o “primeiro tempo” do ano mais ameno e fecundo.
Essa formação explicaria por que “primavera” se conservou com tão pouca variação em várias línguas românicas: aparece idêntica ou muito próxima em português, galego, espanhol, catalão e italiano; no romeno surge como primavara; até o romanche registra forma semelhante (primavaira).
O francês, porém, seguiu outro caminho: printemps deriva de uma expressão equivalente a “primeiro tempo” (prime temps) e sintetiza a mesma ideia do começo — do renascer da vida vegetal, do fim da hibernação de animais, da luz que retorna e, por extensão, da esperança.
Mais do que etimologia, a história da palavra confirma uma percepção humana antiga: a primavera foi, e continua sendo, símbolo de recomeço. É por isso que, ao perceber os sinais da estação — cantos, perfumes, sol inesperado — sentimos uma pequena elevação de ânimo. E ela chegou. Mais uma vez, a primavera nos lembra de começar de novo.
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