Por Marcelo Rubens Paiva — 28.out.2026 às 16h03
Na semana da eleição, recebi 50 estudantes do 2º ano do ensino médio, vindos de cinco escolas da região de São Paulo, que queriam entender, em linguagem simples, o que significam direita e esquerda. Muitos votariam pela primeira vez.
Marcamos um debate no salão de festas do meu condomínio, em círculo de cadeiras brancas. Comecei dizendo que respeito quem se identifica com posições de direita — e que essa diversidade de convicções faz parte da democracia. Lembrei, também, que um encontro assim teria sido impossível durante a ditadura militar: autoridades teriam interrompido a reunião, e poderíamos ter sido presos ou até torturados. Às vezes o zelador entrou exatamente nesse momento para me pedir que assinasse um documento e todos rimos dessa coincidência.
A polarização não é nova: ao longo da história humana houve disputas entre formas de organizar o poder — do Absolutismo e do Iluminismo ao liberalismo, socialismo, anarquismo e fascismo. Mesmo hoje, ideias de direita e de esquerda coexistem com paradoxos: países com alta sindicalização e tributação sobre grandes fortunas, por exemplo, podem manter economias marcadamente capitalistas; os Estados Unidos foram citados nessa reflexão como um caso complexo.
De maneira geral, descrevi aos jovens que, grosso modo, a esquerda tende a ver a desigualdade como um problema que exige ação estatal — políticas públicas, redistribuição e programas sociais — enquanto a direita costuma valorizar a propriedade privada, a iniciativa individual e a regulação mínima do mercado. Na prática, isso se traduz em diferentes preferências por modelos de segurança, saúde e educação: de um lado, soluções privadas e responsabilização individual; do outro, serviços públicos ampliados e um Estado mais presente.
Expliquei que a esquerda costuma defender tributação mais alta sobre grandes fortunas e reformas que reparem concentrações extremas de riqueza, enquanto a direita argumenta que liberdade econômica e recompensa pela iniciativa garantem crescimento. A distribuição das riquezas envolve escolhas: quando alguém recebe uma fatia maior, outra pessoa tende a ficar com menos — e por isso há disputas e alianças políticas para assegurar quem terá a parcela maior.
Usei imagens e histórias para tornar a ideia acessível: fiz o gesto de um meme que os alunos conheciam — o “67” — e sugiri que pesquisassem no Google para ver como a cultura contemporânea também molda percepções políticas. Lembrei, ainda, de episódios do passado brasileiro: mencionei o ministro Delfim Netto, que atuou como braço civil durante a ditadura militar e defendia que um bolo econômico maior beneficiaria a todos — plano que, na prática, ampliou a desigualdade; disse que ele contou com apoio das Forças Armadas, da elite e, segundo registros históricos, do próprio ambiente geopolítico dos anos 1970.
Para ampliar a reflexão, recorri à ficção: em Os Imortais, de Paulliny Tort, uma passagem sobre um encontro entre neandertais e Homo sapiens ilustra diferentes formas de viver em grupo — desde a partilha igualitária de um sopão até a apropriação e hierarquias baseadas na força. Pensei isso como metáfora: nossos modos de organização social alternam entre coletividade e individualismo.
Também recordei que pensadores como Karl Marx viam a transformação social ligada a conflitos e processos revolucionários; por outro lado, optamos por mecanismos democráticos para disputar e alterar as regras de distribuição.
Ao final, os 50 adolescentes tiveram de escolher — como tantos grupos ao longo da história — que forma de convivência preferem: cada um com sua caça ou todos partilhando o sopão? A pergunta permanece atual. Milênios depois, continuamos a disputar o tamanho das fatias, a eleger quem governa e a tentar descobrir maneiras de viver melhor uns com os outros.
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