O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem buscado articular um indulto presidencial ou um projeto de anistia que beneficie o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em troca do apoio da direita à sua reeleição para a presidência da Casa em 2027, disseram dois aliados.
Segundo assessores ouvidos, a iniciativa também visa enfraquecer a pressão de setores da oposição por processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A nova bancada de direita que assume em fevereiro chegou ao Congresso com um discurso centrado em críticas ao Supremo e na defesa do afastamento de magistrados, em especial de Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Bolsonaro.
Alcolumbre, que afirma ser contrário ao impeachment de ministros, traça a estratégia como forma de angariar os votos necessários para permanecer por mais dois anos à frente do Senado. Ele pretende envolver os três Poderes numa “pacificação” pós-eleitoral e disse a aliados que pretende dialogar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para propor um indulto humanitário a Bolsonaro — preso desde agosto de 2025 por participação em tentativa de golpe de Estado.
Na primeira conversa entre Alcolumbre e Lula, realizada na segunda-feira (26) logo após uma votação no Congresso, o tema do perdão ainda não foi discutido, segundo interlocutores. Aliados avaliam também aguardar desdobramentos do caso de Flávio Bolsonaro antes de avançar com a iniciativa.
Se o Palácio do Planalto não aceitar um indulto, o grupo liderado por Alcolumbre pretende trabalhar pela aprovação de uma anistia no Congresso. Em 2025, o Senado aprovou uma proposta de redução de penas que beneficiaria condenados por atos relacionados ao ataque de 8 de janeiro de 2023; a medida, porém, está suspensa desde maio de 2026 por determinação de Alexandre de Moraes, até que o pleno do STF decida sobre sua constitucionalidade.
Um passo apontado por aliados como prioritário seria obter do Supremo o reconhecimento da constitucionalidade da dosimetria aprovada pelo Congresso na forma em que foi votada, o que, na avaliação deles, poderia acalmar parte da base bolsonarista.
No desenho político cogitado por Alcolumbre, a anistia seria redigida de modo a limitar seus efeitos à esfera penal, evitando automaticamente restabelecer a elegibilidade de Bolsonaro — hoje considerado inelegível até pelo menos 2060 em razão da condenação relacionada à trama golpista — uma preocupação apontada por juristas e parlamentares próximos ao senador.
O acordo procurado por Alcolumbre incluiria também o compromisso dos bolsonaristas de cessar as investidas por impeachment de ministros do STF e de direcionar esforços para uma reforma estrutural do Poder Judiciário. Entre os 81 senadores que comporão a nova legislatura, ao menos 49 manifestaram apoio ao impeachment, mas o afastamento de magistrados exige 54 votos, o equivalente a dois terços do plenário.
Alcolumbre enfrenta concorrência interna: Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) são pré-candidatos da oposição à presidência do Senado e contam com a maior bancada do PL — 29 senadores — além de apoios em siglas do centrão. O voto para a mesa é secreto, o que favorece negociações e eventuais dissidências.
Fontes próximas ao senador dizem que a articulação é parte de um esforço mais amplo para compor uma maioria que envolva esquerda, centro e setores da direita, necessária para garantir sua permanência no comando da Casa em 2027.
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