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Almanaque da Girl Up Brasil define ‘violência menstrual’ e oferece guia gratuito para meninas e famílias

Almanaque da Girl Up Brasil define 'violência menstrual' e oferece guia gratuito para meninas e famílias

A organização Girl Up Brasil lança nesta quinta-feira (29) o “Almanaque de Saúde Menstrual – Livres Para Menstruar”, um guia digital gratuito que introduz o conceito de violência menstrual e reúne informações práticas para crianças, adolescentes e famílias.

O termo “violência menstrual” é usado no almanaque para abarcar situações em que a dor, a falta de informação ou a recusa de atendimento digno agravam o sofrimento de meninas e mulheres —um recorte mais amplo do que a chamada pobreza menstrual, que refere-se à ausência de absorventes, saneamento e condições básicas de higiene.

O texto da publicação traz relatos pessoais. Marina Soares, 23 anos, relata ter esperado dez anos até receber o diagnóstico de Somp (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina). Durante esse tempo, segundo ela, percorreu diversas unidades de saúde, desenvolveu anemia e chegou a perder um ovário. “Cheguei a achar que menstruar era um castigo por tudo que passei nessa vida”, diz Marina.

Munah Malek, gerente de projetos da Girl Up Brasil, explica que violência menstrual envolve também a negação de uma educação emancipatória sobre o ciclo, a desvalorização de dores e a ausência de medidas institucionais. No almanaque são citados exemplos como falta de protocolos escolares para lidar com incidentes menstruais, restrições a pausas no trabalho para tratamento de sintomas e a carência de políticas públicas voltadas ao tema.

A publicação apresenta dados e estudos que apontam para subregistros e impactos na vida escolar e de saúde. Uma análise feita pela Vital Strategies Brasil em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora identificou que apenas 0,5% dos prontuários médicos relacionados a dores menstruais foram registrados com os códigos oficiais de doença. A investigação abrangeu 469 mil atendimentos de meninas e mulheres de 10 a 49 anos na rede municipal de saúde do Recife entre 2016 e 2025.

Outro levantamento, dos institutos Alana e Equidade.info, indica que quatro em cada dez meninas brasileiras que menstruam faltam às aulas pelo menos uma vez por mês por causa dos sintomas, o que ressalta o impacto educativo da questão.

O almanaque também discute o chamado racismo menstrual: estigmas e práticas que fazem com que a dor de meninas negras seja minimizada ou ignorada. “A violência menstrual que atinge mais populações negras, indígenas, povos originários, povos quilombolas, tanto na questão dos estigmas sobre esses corpos quanto na falta de garantia de acesso a serviços”, afirma Malek.

Voltado prioritariamente ao público jovem, o material traz orientações sobre o que esperar antes da menarca, como abordar o tema em casa e na escola, estratégias para manejo das dores físicas e do impacto emocional, além de um diário menstrual pensado para facilitar o acompanhamento e os atendimentos médicos. Para compor o conteúdo, a organização consultou ginecologistas, pesquisadores, psicólogos, uma fisioterapeuta pélvica e uma educadora.

A iniciativa nasceu a partir das discussões realizadas nos clubes da Girl Up Brasil, espaços que reúnem jovens de 13 a 22 anos em 14 estados do país para tirar dúvidas e compartilhar experiências sobre saúde menstrual. Participantes relatam que o material pode ajudar meninas que ainda não menstruaram a lidar com a menarca sem pânico; Renata Porto, de 17 anos, descreve ter ficado desesperada ao ver o sangue pela primeira vez e acredita que orientação precoce teria feito diferença.

Além do almanaque, a organização apresenta a mascote Maria Menarquinha no domingo, 1º de novembro, em São Paulo. A personagem será exibida em um cortejo na avenida Paulista, em frente ao parque Trianon, das 9h às 12h. O projeto dirigido a crianças de 4 a 10 anos inclui ainda um caderno de atividades e desenhos para colorir, disponível para download gratuito, com o objetivo de promover conversas sobre saúde menstrual desde a infância.

O almanaque ficará disponível para download gratuito no site da Girl Up Brasil a partir do lançamento online em 29 de outubro.

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via Folha de São Paulo

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